A cartomante que adivinha o presente

Atualizado: 8 de jun. de 2020

COLUNA:

MUSEU DE TUDO

por Theo Alves

Card design a partir da arte de Thom McGlinchey | @mcglincheyillustration

As listas de supermercado são cartomantes que só adivinham o presente. Há algo de mistério aparente nelas que, na verdade, nos descrevem de maneira tão supérflua que nosso esforço e fé é que completam o enigma.


Mas em meio a este cenário de insegurança e caos em que estamos metidos, essas listas tornaram-se uma espécie de mapa para um campo minado que tentamos desenhar de memória: juntar os itens pela proximidade em que se encontram nas gôndolas, calcular se é possível pedir o pão enquanto cortam a carne, que frutas buscar primeiro e as possíveis combinações e substituições a serem feitas imediatamente a depender da condição em que os legumes apareçam.


Ir ao supermercado não é mais uma atividade que se cumpra automaticamente ou em que se possa perder algum tempo das manhãs de sábado a ler os ingredientes ou a data de validade dos molhos de tomate e dos biscoitos. Ir ao supermercado é agora uma tarefa de guerra e comprar presunto é uma espécie de Resgate do Soldado Ryan da vida real e miúda. Confesso que sempre imaginava outra atmosfera para os versos “sair de casa é se aventurar”, do Los Hermanos, mas a vida faz desses truques de semântica.


Algo que está entre a Ciência e a mitologia religiosa são as personalidades de quem compõe as filas dos caixas. Ver as pessoas e analisar a quantidade de produtos comprados, quantos são iguais e passarão juntos pelo leitor de códigos de barra, suas idades e a velocidade com que – provavelmente – pagarão as compras: dinheiro, cartão, crédito, débito, vale. Quantas possibilidades essa decisão é capaz de gerar e quanto tempo ela tomará?


Adivinhar as histórias e perfis pelos carrinhos ou cestas de compras já foi mais fácil: saber se eram solteiros e solteiras carregados de cerveja e salame, donas e donos de casa com uma variedade infinita de iogurtes para as crianças e produtos de limpeza para a casa, velhinhos e suas comidas com baixo teor de sódio e longas conversas com os atendentes dos caixas: a vida, o dia, o preço, a cor dos tomates, o tempo, o tempo, o tempo. Sinto saudade de ver os velhinhos nas filas dos caixas preferenciais, de lhes cumprimentar e sorrir como um neto recém descoberto ali mesmo, entre os desconhecidos do supermercado.


Hoje não há velhinhos, apenas uma voz sem identidade que berra nos alto-falantes da loja: “Esse momento logo vai passar, mas lembre-se de lavar as mãos, usar máscara e higienizar suas sacolas com álcool 70”. Os supermercados sempre venderam ilusões, mas nunca foram tão descarados quanto agora. E se esse momento não passar, devo me queixar ao gerente? Aceitam devolução com a notinha?


As listas de compra são cartomantes que adivinham o presente e esses locutores querem ser os arautos da boa nova. Por isso, peço que não me prometam o que não podem e me deixem digitar apressado a senha, que é crédito.


 
Theo Alves é escritor e fotógrafo, publicou vários livros de contos e poesias e atualmente é colunista do periódico Potiguar Notícias (RN). Como fotógrafo, dedica-se em especial à fotografia documental e de rua. Também ministra aulas de fotografia digital com aparelhos celulares em projetos de extensão do IFRN, onde é servidor.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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