Acúmulo

CRÔNICA

A campainha soou e Raquel foi atender à porta. Era o carteiro com um pacote nas mãos. Assinou o recebimento, agradeceu e voltou para dentro de casa. Casa não! Era um apartamento, pequeno, mas confortável para uma pessoa morar. Raquel morava sozinha, o marido falecera há quase dez anos e o único filho, morava há quatro anos em outro país. Ficara sozinha no apartamento. Não era velha e nem jovem. Apenas uma mulher qualquer. Recebia uma pensão do marido falecido e o filho ajudava enviando alguns valores vez ou outra. Estava bem financeiramente, o apartamento estava quitado e tinha tudo o que precisava.


Nesses quatro anos de ausência do filho, ela desenvolveu uma mania: adquirir coisas. Era uma forma de preencher o vazio de estar só em casa e motivo de ter o que fazer. Comprava todo o tipo de coisa, seja pela internet, ou quando saia à rua. Qualquer item que fazia seus olhos brilharem ela comprava. O quarto que um dia fora do filho, agora estava abarrotado, muitos livros empilhados, caixas com todo tipo de objetos, desde pequenos bibelôs, artesanatos e até fantasias que nunca usara. Em cima da cama de solteiro havia várias sacolas com tecidos variados: com lãs, linhas, panos de louça, roupas de cama, toalhas diversas, várias peças em crochê, para usar em cima da mesa, das estantes, para forrar a batedeira, o botijão de gás, cortinas e muitas outras coisas. Na cozinha também havia muitos eletrodomésticos que ele nem usava mais, tais como: máquina de fazer massa, de fazer pão, batedeira, cafeteira, liquidificador, centrífuga de frutas, chapa elétrica, forno elétrico, micro-ondas e outros aparelhos espalhados pelo balcão e em qualquer espaço que coubessem, alguns ainda nas caixas. Dentro dos armários da cozinha, uma infinidade de louças, xícaras pequenas, médias e grandes; muitos pratos, fundos, rasos e de diferentes adornos. Os potes de plástico eram muitosde tamanhos diferentes, com cores diferentes, com ou sem tampa, fora os potes de vidro, além de travessas de inox, formas e outros objetos. Gavetas estavam lotadas com muitos talheres e utensílios de cozinha; várias panelas, sendo três delas de pressão, além de quatro chaleiras. Seria muito desgastante numerar, classificar ou descrever item por item naquela cozinha. E repare:Raquel tinha preguiça de cozinhar e quase sempre pedia tele entrega de comida. Inclusive guardava muitas dessas embalagens para quando fosse necessário usar para alguma coisa. O apartamento estava lotado de coisas, por todos os cantos e cômodos, muitos que ela nem fazia ideia de que tinha, ou que utilizava, ou ainda, que realmente necessitava.


A faxineira Mariza, que lhe auxiliava com a limpeza uma vez por semana, sempre reclamava de tantas coisas para tirar o pó. Na sala, além do sofá grande, duas mesinhas de centro com vários enfeites em cima, ainda tinha três estantes recheadas de porta-retratos, objetos de madeiras, de louça e de cerâmica. Mariza tinha que desviar e fazer manobras para poder circular no apartamento, nem conseguia arredar os móveis, pois faltava espaço. Raquel gostava de tudo no mesmo lugar. Tinha muitas coisas, mas era organizadasupunha ela. O único lugar mais vazio da casa era seu próprio quarto. Tinha um guarda roupas grande e claro, lotado de roupas, casacos, calças.Uma cama de casal e duas mesinhas de cabeceira com um abajur em cada, um porta retratos da pequena família e poucos itens, comparado com os outros cômodos. O quarto era arejado e tinha boa iluminação quando o sol entrava pela janela na maior parte do dia.


Um dia qualquer, como qualquer outro, acordou animada. Decidiu que iria mudar de casa, quer dizer, de apartamento. Preferia apartamento, por causa da segurança e comodidade. Uma casa exigiria muitos mais cuidados com pátio, com aparelhos de segurança e outros asseios que num apartamento é compartilhado com outros moradores. Onde um zelador cuida do asseio do prédio, um jardineiro dá conta do pequeno jardim e o síndico que se preocupe com as demandas do dia a dia, contanto que venha na conta do condomínio. O fato era que o apartamento estava grande para ela e queria mudar-se para um apartamento menor e mais próximo do centro da cidade. Assim estaria próxima das lojas, shoppings e todo o tipo de comércio que ela gostava de frequentar.


Como disse anteriormente, Raquel estava animada e saiu para comprar caixas de papelão, fitas largas e adesivas, sacos de lixos de tamanhos variados e canetas grossas, tudo para poder acomodar suas coisas bem organizadas e nomeadas. Começou a empreitada pelo quarto que era do filho, dobrou cada peça encontrada, separou por categorias e devidamente ensacadas, colocou nas caixas de papelão, fechou com fita larga adesiva e nomeou cada uma. E assim foi fazendo com todos os outros itens do quarto. Na cozinha também desenvolveu a mesma organização, o mesmo na sala e no banheiro. No próprio quarto abriu o guarda roupas e dobrou cada peça, ensacou por categorias e encaixou, com a fita adesiva larga e nomeou com a caneta grossa. A Faxineira chegou e viu as caixas na sala, uma em cima da outra, e continuava aumentando. Raquel explicou-lhe a ideia de mudar-see, que hoje ela só faria o básico da limpeza, pois faltava muitas coisas para encaixotar.


Duas semanas se passaram e a sala estava abarrotada de caixas, enquanto que os cômodos iam esvaziando, permanecendo móveis e poucos itens de uso do dia a dia. Raquel sentou-se no sofá, ou melhor, na parte que sobrara do sofá para sentar-se, e suspirou. Agora que encaixotara todas as coisas, faltavam resolver como transportar os móveis, contratar ajudantes para desmontar e organizar móveis e a mudança. O apartamento de um quarto que pretendia alugar no centro, não caberia todas essas coisas. Concluiu que teria de se desfazer de algumas caixas e até alguns móveis. Pegou um caderno e começou a escrever uma lista de coisas para resolver, pois era muito organizada.


O telefone tocou, era sua irmã Rosane, a que morava no interior, e que também ficara viúva há dois anos. Disse a Joana que pretendia sair do interior e morar na cidade. Rosana fez uma proposta para Raquel: - Que tal morarmos juntas? Poderia ir morar contigo, já que em seu apartamento há dois quartos. Assim fazemos companhia uma à outra. Raquel não esperava aquela proposta, mas gostou da ideia e animou-se novamente. Rosane disse que em duas semanas estaria pronta para mudar-se e Raquel concordou.


Raquel olhou para as caixas e decidiu fazer algo que jamais lhe passara pela cabeça. Fizera alguns telefonemas, para asilos, orfanatos, casas de passagem e descobriu várias redes e associações que ajudavam pessoas através de doações. Em quatro dias, várias pessoas estiveram no apartamento e as caixas foram diminuindo. Fez novas amizades e todos saíam contentes com as caixas recheadas de itens. Até alguns vizinhos vieram espiar e levar alguns itens. Doou alguns móveis também e o apartamento foi esvaziando. Nesse processo de doações recebeu de volta uma cama de casal em boas condições, que colocaria no quarto que era do filho, que agora acomodaria sua irmã. Em duas semanas o apartamento estava praticamente vazio. Tinha poucos móveis, os necessários para conforto razoável. A cozinha estava maior e a sala parecia um salão de baile, que poderia até testar uns passos de dança.


Quando a irmã Rosane chegou encantou-se com o apartamento da irmã. Arejado, amplo, simples, mas muito confortável, com bastante espaço para as duas. Poderiam morar tranquilamente sem tropeços e incômodos. Raquel estava radiante ao receber sua irmã. Com o passar dos dias, Raquel começara a cozinhar, e sua irmã ajudava-a, por vezes, era Rosane quem cozinhava. Quem não cozinhava, lavava a louça, era o combinado. Conversavam bastante, lembravam-se da infância, de outros parentes, da família, da vida passada, riam e choravam, e ainda encontravam tempo para Jogar cartas, assistir filmes e passearem juntas.


Num fim de tarde enquanto a irmã tomava banho, Raquel preparava um chá para as duas. Sorria sozinha percebendo que em um mês sua vida havia se transformado. Estava mais leve, mais animada e com vontade de fazer outras coisas. Quem sabe uma viagem com a irmã para visitarem seu filho no exterior? Que ótima ideia e deu uma gargalhada.

 

Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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