Ana e eu

CRÔNICA

Quero lhes apresentar a Ana. Nós nos conhecemos ha muito tempo, desde que eu me conheço por gente ou tive noção de algumas coisas da vida. Tempo suficiente para que ela saiba tudo sobre mim. Enquanto eu ainda tento descobrir mais sobre ela. Na maioria das vezes sou eu quem a procuro, questionando e perguntando a sua opinião para as mais variadas dúvidas ou até sobre as certezas que tenho costume de fazer ou de pensar. Sei que ela é muito importante para mim. E digo mais, ela é fundamental em minha vida.


A Ana me auxilia desde as ínfimas querelas, até as grandiosas questões que abarcam meu dia-a-dia. Ela que me ajuda a atravessar a rua, para ter uma noção de sua importância. Ela me ajuda a decidir que roupa vou usar, se o trabalho está bom, se a comida está gostosa, se devo ou não gastar mais do que recebo, e até se o livro que estou lendo é interessante. Auxilia-me na hora de fechar algum negócio, se vale ou não a pena investir em determinada aquisição, se faço ou não aquela viagem, se visito ou não meus pais e o dia que é melhor para fazer isso. Até se levou ou não o guarda chuvas num dia cinzento. A Ana é fundamental e confesso que sem ela, sinto-me perdido, sem direção e sem rumo.


Por vezes parece que a sufoco, mas não é bem assim. Dou espaço para ela. Deixo ela ter seus próprios pensamentos e ideias, que óbvio, compartilha comigo, pois ela tem essa necessidade também, e é recíproco. Nossa cumplicidade é unilateral. Ás vezes, também divergimos: ela tem uma ideia e de como ela deve ser desenvolvida, e eu quero inventar outra forma de fazer ou dou palpites com outras ideias. A Ana é mais racional que eu, me obrigo a concordar com ela na maioria das vezes, porque no final, ela sempre tem razão.


Ela é minha amiga de verdade, e até permito que me diga algumas verdades, no sentido mais sincero e direto. Sem rodeios e sem delongas. E me dá muitos toques, até mesmo em questões de amizades. Por exemplo: foi ela quem me disse pra ficar longe do João quando éramos jovens. O João não era boa companhia. E ela estava certa, mais uma vez. O João era radical e vivia correndo riscos com sua moto de 300 cilindradas e eu ficava sempre pra trás com a minha motinho de 150 cilindradas. Numa dessas curvas da vida, o João derrapou e se foi. E eu queria, porque queria uma moto igual à dele, para poder sentir o vento cortar o rosto a 200 quilômetros por hora. Ana não só me chamou a atenção sobre a velocidade, mas também sobre os perigos de correr desenfreadamente e sem destino. Essa lição eu acabei levando para a vida. Nada de correr além do suportável. Melhor correr com segurança e ter controle sobre as curvas da estrada percorrida. E me convenceu a comprar um carro popular que seria mais seguro para mim e minha audácia de corredor.


Outro aprendizado que Ana me ensinou foi o de relevar as pessoas, ou seja, dar mais uma chance ou de tentar entender porque algumas pessoas agem de uma forma e outras de outras formas. Mostrou-me a ter compreensão e até a ter empatia, coisa que era muito difícil pra mim. Preferia jogar as pessoas fora, sem dar-lhe chances de defesa ou simplesmente, que devia aceita-las como são. Na verdade, isso eu continuo aprendendo. Mas hoje sou mais forte por causa da Ana. Se alguém me dá uma rasteira, levanto logo e sigo em frente, sem olhar pra trás.


Foi a Ana que me fez enxergar o que eu insistia em omitir. Em perceber as mazelas da vida, não só as minhas, mas as do mundo. Me dar conta de que não sou único, bem pelo contrário, sou apenas um pequeno grão de areia no universo. Me mostrou que amar ainda é o mais belo dos sentimentos e que bondade deve ser gratuita, sem esperar algo em troca. Que minhas ideias nem sempre são as mais corretas ou concretas, e mesmo estando só, dependo de outras pessoas. Afinal, ninguém nunca está só, sempre há alguém por perto. E mesmo em minha solidão, a Ana se faz presente.


Quando perdi meu irmão gêmeo para um câncer de esôfago a Ana esteve comigo o tempo todo. Ela que me mantinha acordado para a vida, que me fazia ter coragem e diligência para confortar meus pais, que ficaram arrasados e até hoje ainda estão. É ela que me faz crer na vida e de que para tudo a uma razão, ou um aprendizado. Ela que me disse para sofrer quando e quanto eu quisesse, desde que depois eu enxugasse as lágrimas e olhasse para a frente, pois voltar no tempo ninguém consegue retornar.


Vivemos relativamente bem, ela tem sua casa e eu tenho a minha, são bem próximas, por sinal. Ela está sempre disponível para mim. Sou um cara de sorte. Nessa altura da vida chego a me questionar se ela é a mulher da minha vida? Ela é sim, sem sombra de dúvidas. Até já pensei em pedi-la em casamento, mas já temos a nossa relação bem estabelecida e consolidada, afinal a Ana é a minha consciência. Você também tem uma Ana na sua vida?

 

Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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