Controvérsias

CRÔNICA

No dia 16 de março Crislayne e Robinsom foram ao Cartório de Registros Civis do centro da cidade e casaram-se, com papel registrado e assinado, diante de um casal de amigos como testemunhas e do Juiz de Paz. Tinham ciência do ato e do segredo que essa ação exigia deles. Namoravam escondidos há quatro anos e assim que Cris alçou maior idade decidiram oficializar a união. A omissão sobre o casamento era devido às suas famílias, porque nunca aprovaram o namoro desses dois jovens. O intenso amor da adolescência, o sentimento de eternidade, a sensação de que nada e ninguém mais havia no mundo que completasse um ao outro era compartilhada pelo novo casal. Viveram muitas coisas juntos, a perda da virgindade, a possibilidade de uma gravidez, logo descartada, mas aprenderam juntos a se proteger. Faltaram muitas aulas, desde o nono ano para poderem estar juntos. Por consequência, foram reprovados duas vezes e logo desistiram de estudar. Os dois conseguiram trabalhar no mesmo Super Mercado que acabava de abrir ser inaugurado: ela como Caixa Registradora e ele como empacotador. Sobre o futuro pouco sabiam e menos conversavam, como se a idade nunca chegaria, a maturidade era coisa de gente velha, a sobrevivência resumia-se a estarem para sempre juntos e provariam às respectivas famílias que estavam erradas tentando separá-los. Pelo menos era isso que Crislayne acreditava. Robinsom era mais aventureiro e vez ou outra dava umas fugidas, ia para o Bar do Ganso com alguns amigos e bebiam cerveja, com muitas risadas e conversas de homem. Ele precisava dessa folga da vida e das obrigações.


Passados quatro meses do casamento no civil, eles alugaram uma quitinete próxima ao trabalho e assim, saíram da casa de seus familiares, para enfim, viverem a vida de casados. O primeiro ano foi ótimo e aproveitaram muito a liberdade de viver esse grande amor que era para sempre. Robi convenceu Cris de que, por vezes iria ao bar com os amigos, coisa de homens, com papo de homens, as bebidas de homens e as atitudes de homens, mesmo sendo casado. Num primeiro momento Cris não aceitou muito essa situação, mas o que fazer? Homens são assim mesmo. Começou a perceber que abandonar suas amigas pelo seu amor fora um grande erro, e mesmo que quisesse sair com alguma colega de trabalho, não era coisa de mulher casada, conforme seu próprio marido. Ficava em casa sozinha esperando o marido voltar. Ficava triste, pois não havia o que fazer, ainda não tinham conseguido adquirir uma televisão e o pequeno rádio não sintonizava emissora que mais gostava. Aproveitava para limpar a casa, lavar roupa, fazer comida mais caprichada para levarem ao trabalho no dia seguinte. Mais um ano se passou e começaram a perceber que a vida de casados era um tédio, que nada conseguiam fazer, pois o dinheiro era curto e as contas altas. Mal sobrava para comerem, faziam contas e mais contas e nenhuma ideia surgia para que conseguissem superar a falta de dinheiro. Só trabalhar para pagar contas. A vida de adulto e responsável começava a pesar e o amor de certa forma foi esfriando. Toda aquela ânsia que por anos os acompanhava começava a diminuir, era muita coisa pra pensar e garantir o mínimo. A vida antes do casamento era mais emocionante, lutavam para estarem juntos e o sabor da coisa proibida era néctar para os enamorados.


Mesmo diante dessas dificuldades Robinsom continuava frequentando o bar com os amigos, afinal precisava relaxar. Gastava menos do que antes, mas mesmo assim era seu momento de fuga dos problemas diários com o trabalho, com as contas e com a esposa que perdera a vivacidade da juventude. O Bar do Ganso era num beco próximo ao centro da cidade e mal frequentado, quer dizer, havia vários perfis de frequentadores desse bar e alguns eram envolvidos com tráfico de drogas, roubos e outros delitos graves. Robinsom acabou conhecendo alguns desses homens e percebeu que tinham sempre dinheiro. Gastavam muito mais com bebidas, cigarros e riam muito sempre, de bem com a vida, nunca tinham problemas. Robinsom começou a fazer parte da roda de cerveja e fumo, sentia-se bem e feliz, voltava pra casa mais animado. Tinha noção de que aqueles novos amigos de bar eram só de bar, e não devia aproximar-se muito ou envolver-se em intimidades. Era coisa de homens de bar.


Três anos se passaram e no dia 16 de março Cris e Robin saíram do trabalho e foram para casa. Cris disse que faria uma comida especial para comemorarem o aniversário de casamento. Robinsom disse-lhe que não fizesse nada, pois iria ao bar com os amigos, já tinha marcado. Ademais deveriam comemorar o aniversário de casamento na data em que foram morar sob o mesmo teto. Cris não queria discutir, o dia tinha sido pesado no trabalho e mesmo ansiosa pelo aniversário de casamento, já não faria tanta questão assim. Ao chegar ao Bar do Ganso, cumprimentou os atendentes, conhecia todos, e foi logo ao fundo do bar, onde os novos, quase antigos amigos da grana e do riso estavam. Logo falou que era seu aniversário de casamento e estava ali para comemorar com eles, todos riram e pediram uma rodada de cerveja, bem gelada, para comemorarem. Riram muito, o papo ia bem, falavam alto e Robi sentia-se relaxado, decidiu que ia encher a cara, ficar muito bêbado até vomitar, o que não demorou muito. Alguns dos amigos o levaram para o lado de fora do bar, para que pudesse usar a rua, tomar ar e usar o meio fio como privada para o jorro de líquido amarelado que saia de sua boca. Os amigos riam da situação e gozavam da fraqueza de Robi. Sentado no meio fio teve a impressão de ouvir, lá longe, sirenes de polícia, mas não era longe, era praticamente na frente dele. Bruscamente parou um camburão da Polícia Civil com mais três viaturas da Polícia Militar. Nem teve tempo de levantar, foi levantado por dois policiais que o algemaram e o colocaram no camburão junto com mais cinco de seus amigos que estavam na calçada. A cabeça de Robi girava, seu estômago embrulhava e sentia sono. Dormiu sentado dentro da viatura por alguns minutos. Quando abriu os olhos novamente, já estava numa cela da Delegacia e seus amigos estavam sérios, nem percebiam que ainda estava mal. Em três dias os levaram para o Presídio Central e encarcerados não tinham mais contato com o mundo lá fora.


Assim que soubera do ocorrido Cris ficou desesperada, não sabia o que fazer, quem procurar ou como agir. Na Delegacia, um Advogado veio falar com ela, e disse-lhe que não se preocupasse e que logo Robinsom estaria solto, mesmo que as acusações fossem bem sérias: envolvimento com o tráfico e roubos. Era o responsável pelo inquérito de todos que foram presos na noite de 16 de março. Cris falou-lhe que seu esposo não tinha envolvimento com os crimes de que fora acusado, ele só estava no lugar errado, na hora errada e em companhias erradas. O advogado mal escutou o que ela disse, deu-lhe um cartão e saiu. Um mês se passou e Cris foi visitar Robi no Presídio Central, nunca imaginara passar por uma situação dessas, sentia-se como uma criminosa e de certa forma violada por apalparem seu corpo, suas roupas e vasculharem a sacola que carregava. Conseguiu falar com Robi por 30 minutos e disse-lhe que o advogado estava cuidando de tudo e que logo ele estaria solto. Ao sair da prisão Cris sentou no chão e chorou. Assim que se reestabeleceu ligou para o advogado para saber da situação de seu esposo. O advogado informou que estava tudo parado, pois não recebera nenhum valor para defender Robinsom. Cris salientou que seu esposo era inocente, mas o advogado insistiu que precisava ser pago para proceder à defesa e informou os custos de seu trabalho. Cris chorou novamente, não tinha esse dinheiro, tampouco onde conseguir. O advogado disse que os outros indiciados já o haviam pago e, então sugeriu que Cris procurasse a Defensoria Pública. Em busca de alguém que defendesse seu marido, varou o Ministério Público, dias e dias, sem nada de concreto, só promessas. Por suas faltas ao trabalho foi demitida, não tinha como arcar com os custos do aluguel da quitinete e muito menos como se sustentar. Voltou à casa de seus pais implorando guarida. Por dias a fio teve de ouvir calada todas as insinuações de sua família, de que a avisaram muito e que sua teimosia havia causado todo esse problema, sem contar o inconsequente do Robinsom. Cris estava sem chão, e mesmo assim, continuou insistindo com a Defensoria Pública e quando era possível visitava o marido na prisão.


Um ano se passou desde a prisão de Robinsom e Crislayne começava a perder as esperanças. Cada vez que ia à prisão visita-lo saia de lá pior do que entrara. Ouvia as queixas de seu esposo, de seu sofrimento no cárcere, que apanhava muito de seus colegas de cela, que comia muito mal, quando comia, e exigia que Cris trouxesse cigarros que era uma das formas de conseguir algum tipo de proteção dentro do presídio. Gradativamente foi ficando agressivo com ela, por vezes, não queria vê-la nas visitas, e quando a via começara a ser indiferente com ela. Chegou a pedir o divórcio para Cris, dizendo que não queria vê-la sofrer por ele. Nesse dia, ao sair da prisão, sentou-se no chão novamente e chorou, mas dessa vez, um choro silencioso e amargo de derrota, de desamor e de vazio. A ação de divórcio foi bem rápida, com a ajuda de um dos agentes penitenciários que já conhecia Cris e sua luta pelo marido.


O divórcio saiu, mas nem sinal de que Robinsom fosse solto. Cris chegou a sentir remorso e até perdoaria seu marido, pois desconfiava que o intuito dele fosse para protegê-la. O tempo foi passando e Cris cessou as visitas ao presídio, de certa forma, havia desistindo dessa luta. Estava cansada, não via solução sem dinheiro para pagar quem o defendesse. Não via mais sentido em visitar seu ex-marido e ele também não fazia mais questão de suas visitas. Cris arranjou trabalho em outro mercado, também de Caixa Registradora e lá conheceu Jeferson, que trabalhava como abastecedor das gôndolas. Logo ficaram amigos, Jeferson era muito querido, sempre tinha tempo para ouvi-la, era carinhoso com ela e logo um romance surgiu. Deram-se muito bem. A família dela adorava Jeferson e em um ano de namoro, casaram-se. Cris adotou o sobrenome do marido e sua família ajudou o casal a construírem duas peças com banheiro no terreno nos fundos da casa dos pais de Jeferson. Cris sentia-se feliz, sentia que a vida lhe sorria outra vez, que era possível amar outro alguém, sentia-se segura e apoiada por seu novo esposo. Jeferson realmente era um homem diferente, ela nunca tivera muitas experiências, mas um sentimento de tranquilidade e de paz a invadiu, e acalmou seu coração.


Oito anos depois, Robinsom saiu da prisão. Ninguém o esperava do lado de fora, nem mesmo alguém de sua família, e mesmo que alguém o esperasse talvez não o reconhecessem. Agora Robinsom chamava-se Rubia e estava muito contente com a nova vida que lhe esperava, mesmo que houvesse dificuldades, aprendera a usar artimanhas para garantir sustento e desenvolvera sua feminilidade, para em seguida unir-se a um dos agentes penitenciários da prisão. Nunca mais soubera de Crislayne e tampouco lhe passava pela cabeça procura-la. Enquanto isso, Jeferson e Crislayne tiveram dois filhos e viviam felizes com o trabalho junto da família, agora unida. Nunca mais soubera de Robinsom e tampouco lhe passava pela cabeça procura-lo.


Robinsom e Crislayne não eram mais os mesmos jovens do passado. Aliás, o passado ficara para trás e o presente lhes oferecia um futuro diferente e recheado de outras possibilidades. Afinal o sentido da vida é ser feliz, independente de como ou porque, simplesmente estar feliz com suas escolhas e disposição para sustentar todas as decisões tomadas.

 
Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

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