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Do Sul do Brasil para o mundo

A Revista Cultural Escape traz, para deleite de seu leitor, uma entrevista descontraída e recheada de informação sobre livros, leitores e cultura com o escritor Gaúcho Henrique Schneider.

Henrique nasceu em Novo Hamburgo/RS no ano de 1963 e desde 1984 em que publicou seu primeiro livro não parou mais de escrever. Suas histórias instigantes, modernas, permeadas de realismo, humanidade, sensibilidade e dinamismo oferecem uma leitura aguçada, leve e com desfechos inusitados. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais atua como Advogado o que não o impede de observar a vida, tanto a sua, como as mais variadas formas de existência através de seus personagens tão marcantes.


Recebeu diversos prêmios literários, participou de várias Feiras do Livro, sendo patrono de algumas dessas feiras, teve uma coluna semanal no Jornal ABC Domingo por 11 anos e ainda teve fôlego para fazer leituras públicas e gratuitas de seus mais de 600 contos. Essas leituras já o levaram a diversas cidades e até para outros países. Participou de diversas antologias e possui textos publicados na Espanha, México e Argentina.


Foto do acervo pessoal do autor | © Henrique Schneider

Incansável e determinado, Henrique sempre esteve envolvido com a Cultura, com os livros e com suas criações. Setenta, o mais recente livro publicado foi o vencedor na categoria Romance do Prêmio Paraná de Literatura 2017.


Henrique Schneider já conquistou seu lugar entre os grandes ficcionistas brasileiros e recebeu elogios contundentes de seus pares literatos. É redundante e imprescindível ler seus livros e reconhecer esse grande escritor.


Foto do acervo pessoal do autor | © Henrique Schneider

Saiba mais sobre esse escritor em sua página: www.henriqueschneider.com.br e leia seus livros, vocês irão se surpreender.


De seu primeiro livro publicado Pedro Bruxo em 1984, até o Setenta 2017, como você descreveria sua evolução criativa?

Não é uma resposta simples. Acho que minha forma de narrar segue meio parecida ao que era no início, mas acho que dei uma guinada em direção à simplicidade e ao ritmo. Não sei se consegui. Além disso – até pelo fato de ter também uma carreira na advocacia e, desse modo, não poder dedicar todo o meu tempo à literatura - acho que desenvolvi um senso de disciplina bem forte e um olhar bem acurado em relação a tudo o que me rodeia. Como costumo dizer, não me dou ao luxo de desperdiçar o olhar. Outra questão é a da organização – que não se confunde com a disciplina. Após escolher um tema ou assunto e antes de começar a escrever, faço uma pesquisa bem grande, a fim de me assenhorar do que será escrito. Leituras, conversas, visitas, viagens, filmes e muitas anotações – nas quais começo a desenhar e organizar o que será o livro – são companheiros habituais da pré-escritura.


Você recebeu diversos prêmios literários. O que significa esse reconhecimento e que relevância tem para a sua obra?

Como bem diz o Deonisio da Silva (que foi jurado no Prêmio Mauricio Rosemblatt de Romance, que venci com “O Grito dos Mudos”), os prêmios não ensinam ninguém a escrever, mas servem e muito para ampliar o nosso trabalho. Para mim, que sou um escritor interiorano, que mora e trabalha longe dos pólos editoriais (isso é uma condição, não uma reclamação) - e que, por tais razões, pouco convive com os meios literários - os prêmios possuem alto significado. Primeiro, porque, passando pelo crivo de um júri de especialistas, significa uma espécie de chancela em relação à possível qualidade do que escrevo. Segundo, porque amplia em muito a própria voz do livro premiado. E terceiro, porque acaba sendo uma remuneração às horas de trabalho.


Você tinha uma coluna no jornal ABC Domingo, um dos principais jornais do Rio Grande do Sul, intitulada Vida Breve. E seus contos publicados neste periódico culminaram na publicação do livro sob o título A Vida é Breve Descreva sobre sua experiência com estas leituras públicas.

A coluna existiu entre 2003 e 2017 ou 2018, não recordo bem. Foram mais de 600 pequenos contos publicados ao longo de todos estes anos, em todos os domingos. A experiência foi ótima, porque colaborou muito para que eu desenvolvesse o senso de disciplina e organização que mencionei na resposta à primeira pergunta e fez com que eu aguçasse ainda mais o meu olhar em direção ao meu redor – afinal, não é fácil achar e escrever uma história por semana. Em razão da grande tiragem do jornal (cerca de 60, 70 mil exemplares à época), a coluna também contribuiu muito para a divulgação do meu trabalho como escritor. E, por fim, houve o desdobramento em direção às leituras públicas mencionadas na pergunta. Durante dez anos, com apoio e patrocínio da Universidade Feevale, fiz leituras públicas e gratuitas em espaços culturais diversos, em várias cidades gaúcha, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Montevidéu, Punta del Diablo, Buenos Aires, Lisboa, Porto, Berlim e Paris.


O livro Contramão está em sua segunda edição, você consideraria como um marco em sua carreira literária?

Não é fácil lançar livros no Brasil. Assim, todo livro lançado representa um marco por si mesmo. O “Contramão” (Bertrand Brasil) foi, sim, um marco porque foi finalista do Prêmio Jabuti e venceu o Prêmio Livro do Ano – Narrativa Longa da Associação Gaúcha de Escritores. Mas acho que, se formos falar em marcos para a carreira, “O Grito dos Mudos” e o “Setenta” representam mais. “O Grito dos Mudos”, venceu o Prêmio Mauricio Rosemblatt de Romance, é o meu livro mais vendido (está na oitava edição) e me abriu muitas portas. “Setenta”, que venceu o Prêmio Paraná de Literatura e está sendo traduzido para o árabe, está tendo uma repercussão boa em razão do próprio momento brasileiro.


Você considera que a participação de autores em feiras de livros contribui para divulgar seus trabalhos? E de que forma suas experiências como Patrono de Feiras de Livros contribuíram para sua carreira?

Sou um defensor das feiras de livros, em especial no formato que costuma se utilizar no Rio Grande do Sul: as feiras no meio de praças, em locais abertos. Acho que isso populariza, democratiza e incentiva a participação do público: livro e árvore, livro e rua, livro e gente, livro e cachorro latindo, livro e vida são combinações ótimas para a Literatura. E acho, sim, que a participação de autores nas referidas feiras pode contribuir para a divulgação de seus trabalhos literários e da Literatura em si. Mas isso só acontece se houver uma espécie de trabalho anterior, que o autor não seja apenas uma ‘figura decorativa´ que conste na programação – há vezes em que o autor é contratado para falar em feiras em que seus livros não estão à venda em nenhuma barraca ou estande. E também é necessário que a feira seja realmente do livro – ou seja, que o livro e a Literatura sejam uma espécie de ´estrela maior´ e não coadjuvantes.


Bate-papo com o escritor em 14 de setembro de 2019, nas Faculdades Integradas de Taquara (Faccat).

Seu mais recente livro Setenta recebeu o Prêmio Paraná de Literatura 2017, na categoria Romance, como você descreveria esse reconhecimento e de que forma contribui para a divulgação da obra.

“Setenta” recebeu o Prêmio Paraná de Literatura e, por conta disso, teve uma primeira edição (não comercial) pela Biblioteca Pública do Paraná, que foi distribuída em escolas e bibliotecas. Depois, foi publicado pela Editora Dublinense, através do selo Não Editora. O livro está tendo uma boa aceitação e as críticas tem sido positivas. Além disso, tive a oportunidade de, com ele, participar da Printemps Littéraire Brésilien, na França e Bélgica, falando sobre o livro e sobre a literatura no Brasil nestes tempos difíceis nas universidade de Rennes, Nanterre e Universidade Livre de Bruxelas. Torço muito pelo livro. Não por mim, por algo assim como ´carreira literária´, não pela qualidade que ele tenha ou não tenha, mas pelo livro em si, pela urgência do tema. “Setenta” trata da tortura e da ditadura brasileira, e me parece necessário que falemos sobre isso nestes tempos em que há narrativa crescente no sentido de minimizar os efeitos terríveis de uma ditadura.


Ainda sobre o Setenta, você aborda a indiferença política de alguns, o direito à liberdade e sobre a tortura na época da Ditadura no Brasil, como essas questões te representam como escritor e brasileiro?

Minha condição de escritor não se afasta da minha condição de cidadão, e isso faz com que minha literatura seja compromissada. Note que não estou dizendo que isso tenha que ser ´regra´; é apenas uma condição pessoal minha. Vale tão somente para mim. Acho que vivemos tempos sombrios, nos quais existe uma ameaça constante a direitos sociais, trabalhistas, civis e humanos. E o pior é que tais ameaças contam com o apoio de parcela da população. Manifestações públicas (e até orgulhosas!) de racismo, homofobia, misoginia e sexismo são exemplos disso. Manifestações nas ruas pedem a volta da ditadura, num paradoxo ignorante: pessoas indo às ruas para pedir a volta de um regime em que não se pode ir às ruas. E a afronta a tais direitos é, na verdade, uma afronta à própria democracia. Winston Churchill, primeiro-ministro inglês, disse que “a democracia é o pior de todos os sistemas... com exceção de todos os outros.” Não se pode dizer que Churchill fosse de esquerda. E é assim: o compromisso pela democracia não tem lado. É democracia ou barbárie.


Como tu avalias a atuação da imprensa brasileira e os meios de comunicação tradicionais em relação à Literatura? E as esferas digitais, este formato pode ser considerado mais honesto e fiel às necessidades do artista literário contemporâneo?

Nos meios de imprensa tradicionais, a Literatura tem espaço mínimo. Nunca foi grande, e agora é ainda menor – a grande maioria dos jornais limita-se a noticiar (quando noticia) o lançamento deste ou daquele livro, sem qualquer olhar mais crítico a respeito. Nesse sentido, as esferas digitais têm cumprido ótimo papel, seja na própria criação, seja na divulgação ou crítica desta criação. Há inúmeros blogs e plataformas de críticas literárias, seríssimos, que ocuparam com intensidade e consistência o lugar aberto pela mídia tradicional.


De que maneira você observa a questão da formação de leitores no Brasil? Você acredita que o quadro tem melhorado de uns anos pra cá ou os números oficiais são apenas números e não refletem o interesse do leitor pela Literatura?

Historicamente, o Brasil não é um país que lê. E, como país, não tenho dúvida de que estaríamos melhor se lêssemos mais. Da mesma forma que uma pessoa se qualifica, individualmente, lendo mais, um país também se qualifica lendo mais – sob pena de permanecer na condição de fornecedor de mão-de-obra barata aos países leitores... Segundo informações, os números relativos à leitura estavam crescendo no Brasil (embora ainda muitíssimo distantes do desejável), em razão de algumas políticas públicas e pelo próprio fortalecimento do hoje extinto Ministério da Cultura. No entanto, além do já antigo PNLD-Literário não tenho conhecimento de qualquer política pública de fortalecimento da leitura nos tempos atuais. Tal fator, agregado a outros – tais como as múltiplas possibilidades de entretenimento fornecidas pelas redes sociais e o próprio desinteresse de várias grandes editoras pela literatura em si -, infelizmente não permite enxergar um futuro muito promissor na questão da formação de leitores no Brasil.


Que importância tem (ou pode ter) a Literatura na vida cotidiana das pessoas?

A literatura é um prazer transformador. Como costumo dizer nas minhas falas em escolas, quem lê tem mais vocabulário, mais assuntos, mais profundidade sobre estes assuntos, pensa mais, pensa com mais autonomia. Nas conversas públicas que faço, as pessoas seguidamente me dizem que até gostam de ler, mas não tem tempo para isso (o que é estranho, uma vez que há gente ´sem tempo´ que passa horas nas redes sociais...). Aí, faço um desafio: que a pessoa reserve dez minutos por dia, de segunda a sexta-feira, para leitura. Nestes dez minutos, lê-se em torno de cinco páginas, o que dá vinte e cinco na semana e uma centena no mês – e há uma enormidade de bons livros com cem páginas. Quando chegar no fim do ano, a pessoa terá lido doze livros – o que, em termos de Brasil, a transformará numa ´super leitora’.


Que conselho você poderia dar para um escritor que deseja dedicar-se à Literatura?

Quem deseja dedicar-se à Literatura deve ler, ler muito. É possível escrever uma grande história sem ser um grande leitor – se ela for uma experiência própria, um relato impactante e ´pronto para sair’ -, mas acho que não é possível ter aquilo que se chama de ´carreira literária ´sem a leitura. Outra questão é não desistir logo ao primeiro empecilho. Da mesma forma que o primeiro livro e o primeiro namoro costumam ser mais difíceis, também o são a primeira obra, os primeiros textos.


Talvez, estejamos vivendo hoje o pior momento no mercado editorial brasileiro. As já escassas livrarias brasileiras vêm fechando as suas portas de norte a sul do país. As editoras, com recursos muito limitados, encontram maiores dificuldades para divulgar e distribuir os seus livros. Por outro lado, as plataformas digitais oferecem novo fôlego para este mercado. Como você vem percebendo esse movimento no mercado editorial brasileiro?

É necessário agregar a este quadro a condição excepcional que vivemos – nós e o mundo todo -, decorrente da pandemia do coronavírus. Muitos estabelecimentos fechando, muitos precisando se reinventar. Pessoalmente, tenho muita saudade de entrar nas livrarias de minha predileção – Taverna, Bamboletras, Cirkula, Padula, Miragem e outras – sentar e folhear livros meio a esmo, para escolher um ou outro. E nesse momento tão difícil, entram as plataformas digitais como elementos de salvação. Muitas livrarias, editoras e espaços culturais estão se mobilizando e – repito – se reinventando, fazendo promoções, eventos (as famosas ´lives’) e oferecendo serviços através das plataformas digitais. Assim, acho que o uso das plataformas digitais é uma maneira do mercado editorial se manter neste período difícil (e, nesse sentido, chamo a atenção para o fato de que é legal as pessoas escolherem livrarias e editoras pequenas e independentes, que são as que estão enfrentando as maiores dificuldades). Tenho um olhar teimosamente otimista: quando retomarmos uma certa possibilidade de vida social, acho que os verdadeiros leitores voltarão logo às livrarias físicas, matando a saudade. Porque é como eu digo sempre: nas plataformas digitais, a gente compra o livro que quer; na livraria, a gente compra também aquele livro que a gente nem sabe que quer...


Podemos dizer que a partir do crescimento das mídias sociais o autor, além de produzir artisticamente, ele tem que ser o seu próprio agente, divulgador, distribuidor e vendedor de sua obra? Como você interpreta essa possibilidade?

Não sou uma pessoa muito afeita às tecnologias, me atrapalho bastante na hora de divulgação de meus livros e textos nas mídias sociais – por isso peço sempre o auxílio de quem mais entende. Mas acho que essa possibilidade é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que potencializa a divulgação do trabalho literário, corre-se o risco de ficarmos mais atentos a quem melhor ´vende´ sua obra do que a quem melhor a escreve. Além disso, o escritor desdobrado em agente, divulgador, distribuidor e vendedor de sua obra corre o risco de acabar dedicando menos tempo e atenção à obra em si – o que é um perigo.


Na sua opinião, qual a importância das livrarias independentes no fomento e incentivo à leitura e na cadeia do livro como um todo?

Estendo esta questão às editoras independentes. Acho que livrarias e editoras independentes são essenciais à formação da boa leitura e da diversidade. Explico: se vou a uma livraria no aeroporto do Rio, de Praga, de Lima, de Tóquio ou de Luanda, vou encontrar mais ou menos ´a mesma coisa’: auto-ajuda, conselhos financeiros e, na Literatura, best sellers e thrillers que se passam em Paris, Veneza ou algo assim. Aí, a Literatura estará cumprindo parte do seu papel – o de entretenimento, Mas a parte mais transgressora, a que estabelece uma espécie de ´mais pensar’ se encontra muito nas editoras e livrarias independentes, cujo acervo não se norteia pela lista dos mais vendidos. Costumo dizer que são livrarias de identidade. Por isso, repito que estas livrarias e editoras são essenciais na cadeia do livro.


Quais os planos que você tem para o futuro? Vem nova obra por ai?

Participo com um conto de um livro que será lançado brevemente pela editora Dublinense. Além disso, estou corrigindo um livro e começando a planejar outro. Nesta incerteza da pandemia, não sei quando eles serão publicados – mas nem por isso paro de escrever.


Livros publicados:

  • Pedro Bruxo, 1984. Editora Metrópole.

  • O Grito dos Mudos, 1989. Editora L&PM/Bertrand Brasil. 8ª Impressão.

  • A Segunda Pessoa, 1999. Editora Mercado Aberto.

  • Contramão, 2007. Editora Bertrand Brasil. 2ª Impressão.

  • Avenida de Histórias, 2009. Editora Um Cultural.

  • Novo Hamburgo – a cidade se revela, 2009. Editora Um Cultural.

  • A vida é Breve e Passa ao lado (contos), 2011. Editora Dublinense. 4ª Impressão

  • O Tempo Quase, 2014. Lê Editora.

  • Respeitável Público, 2015. Editora Dublinense. 2ª Impressão

  • Cidades Contemporâneas, 2016. Editora Um Cultural.

  • Setenta, 2019. Editora Dublinense (selo Não Editora) – 2ª Impressão

 

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Entrevista: Juliane Sperotto | Jornalista Responsável: Cláudia Kunst | Revisão Ortográfica: Juliane Sperotto | Editoração, Layout e Web Design: Daniel Cunha 


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