Eras diferentes

Atualizado: 27 de jul. de 2021


Às 6h da manhã Adelina abre os olhos, automaticamente. Está acostumada a acordar às seis horas da manhã, desde sempre. Olha para o lado e o marido ainda dorme. Levanta-se e coloca uma saia longa, uma blusa e sai do quarto. Passa por um longo corredor, vai direto ao amplo banheiro, com bidê, lava-se. Sai do banheiro e continua no corredor com mais quatro portas e logo em seguida passa pela ampla sala de estar, com dois sofás e mais duas poltronas, dá uma olhadinha para o relógio cuco em cima de um balcão, são seis horas e oito minutos. Vai até a cozinha, que fica nos fundos da casa. Chega à ampla cozinha com uma grande mesa de oito cadeiras ao centro e vai direto a pia de tijolos que fica ao lado do fogão à lenha. Ouve passos e abre-se a porta da cozinha que dá para uma área coberta e logo em seguida um quintal, entra o filho mais velho, que tem 21 anos, e lhe dá bom dia. A mãe responde. O filho traz lenha nos braços e dirige-se ao fogão à lenha, coloca a lenha e ateia fogo. Adelina põe água na chaleira e a põe no fogão, volta a pia e pega o bule na parte de baixo, coloca o coador na armação e coloca o pó de café. O filho mais velho ainda continua no fogão à lenha ateando fogo para que funcione melhor e aqueça mais rápido. A porta da cozinha abre-se novamente e o filho que tem 19 anos entra, com um balde cheio de leite e entrega-o para a mãe. Dá-lhe bom dia e ao irmão também. Eles respondem. Ela retira uma leiteira de alumínio cheia de leite do balde e a coloca no fogão à lenha ao lado da chaleira. O marido chega à cozinha pelo corredor da casa e dá bom dia alto a todos. Em seguida chegam à cozinha os outros quatro filhos, uma moça de 16, que informa que o relógio cuco da sala está marcando 6:30, atrás dela, entram a outra filha de 14 anos, um menino de 11 anos e uma menina de oito anos. Todos dizem bom dia e os pais respondem, seguidos pelos irmãos, a pequena de oito anos está eufórica e grita bom dia. O filho sai pela porta da cozinha com o balde de leite pela metade nas mãos. Adelina retorna a pia e começa a colocar a água no coador e o cheiro de café invade toda a cozinha. As meninas de 16 e 14 anos dirigem-se à despensa da casa, de lá trazem o pão que havia sido feito no dia anterior, o pote de biscoitos de polvilho e um queijo redondo quase inteiro. Colocam na grande mesa da cozinha, onde o pai estava sentado à cabeceira e fala sobre o tempo com o filho mais velho que estava sentado ao lado do fogão à lenha. A mãe e a menina de oito anos pegam os talheres, oito colheres e oito facas e uma faca maior para o pão. As filhas de 14 e 16 revezam-se entre colocar a toalha na mesa, as oito canecas de barro que retiraram do armário baixo, e da cristaleira retiram as compotas de geleia de abóbora e de goiaba, o pote de mel e o pote de açúcar mascavo. Tudo na mesa, em cima da toalha. Adelina volta a pia e coloca mais um pouco de água no coador, enquanto isso, retira o leite quente do fogão à lenha e o coloca em cima da grande mesa. Percebe que todos estão se colocando à mesa, o pai continua falando sobre o tempo com o filho mais velho que move-se até a mesa e senta-se ao lado do pai. Abre-se a porta da cozinha, entra o irmão que havia levado o balde de leite, senta-se à mesa, ao lado do irmão mais velho, entre o irmão de 11 anos, entrou na conversa do pai e do irmão mais velho sobre o tempo. Do outro lado da mesa, as irmãs de 16 anos e a de 14 anos estavam sentadas, quietas e aguardavam, apenas a menina de oito anos implicava com o irmão de 11 anos e tentava interferir na conversa sobre o tempo com seus irmãos, e ainda provocava as irmãs tentando fazê-las falar também. Adelina voltou à pia e observou que o café estava pronto, levou o bule até o centro da mesa, ao lado da leiteira e sentou-se na outra cabeceira, de frente para o marido. Todos olharam-se e começaram a servir-se. Os homens tomavam café preto com açúcar mascavo, apenas o menino de 11 anos ainda tomava café com leite. As mulheres tomavam café com leite, mais leite do que café, com ou sem açúcar mascavo. O pai corta o pão e distribui entre os filhos, a filha de 16 abre o pote biscoitos de polvilho e também, os distribui, e cada um come como quiser, uns com geleia de abóbora, outros com geleia de goiaba, outros com mel. A mãe corta pedaços do queijo com a faca e distribui entre os filhos. Todos comem em silêncio. Logo em seguida, todos estão prontos. Os homens são os primeiros a levantar da mesa e dirigem-se à porta de saída da cozinha. O pai abre a porta da cozinha e olha o relógio de pulso e diz para a esposa e que são 6:50, e que ficarão aguardando o almoço no meio dia, como sempre, e sai pela porta, seguido pelos filhos homens. O filho mais velho informa que vai usar o banheiro da área de fora, para deixar o de dentro para os pequenos. Apenas o filho de 11 anos permanece sentado. Adelina levanta da mesa com o bule de café vazio e a leiteira quase vazia e vai a pia. As filhas recolhem o restante das coisas da mesa e guardam na despensa, armário e cristaleira, enquanto a pequena de oito anos, recolhe os talheres e as canecas. Adelina lava a louça no tempo em que as filhas terminam de retirar a mesa. A filha de 16 anos pega a irmã de oito anos pela mão, que agora conta alguma história para os irmãos, e a leva pelo corredor aos quartos e são seguidas pelos outros dois irmãos. Adelina termina a louça e senta-se na mesa, agora vazia e olha ao redor o silêncio que dura alguns segundos, pois já escuta vozes dos filhos no corredor. Chegam todos os filhos na cozinha e a mais velha, que vem do corredor e olhou o relógio cuco e informa que são 7h. Um por um vai até a mãe e dá-lhe um beijo no rosto e pede a benção, e vão saindo pela mesma porta da cozinha. Ninguém costuma usar a porta da sala de estar, que dá para um jardim lindo que ela mesma cuida pessoalmente e que é causa de inveja dos vizinhos. Adelina ficou novamente em silêncio e olhou novamente ao seu redor e pensou em muitas coisas, dentre elas, o almoço do marido e dos filhos, o pão que deveria ser feito, a casa para limpar, ainda bem que a filha de 16 anos logo voltaria para ajudá-la, tinha levado os irmãos à escola. Pegou o pano de copa nas mãos e suspirou suavemente, com a sensação do dever cumprido, mais uma manhã em família, mais um dia para vencer. Levanta-se com o pano de copa nas mãos e vai secar a louça do café da manhã. O despertador apita 6h da manhã, Rejane abre os olhos, olha para o lado, está o marido dormindo. Levanta-se da cama, vai direto ao banheiro e toma um banho rápido de 10 minutos, veste-se em 10 minutos e voa para a cozinha. Põe água e pó de café na cafeteira, coloca as canecas na mesa, juntamente com o açúcar e o adoçante. No armário aéreo pega o pacote de pão de forma e coloca-o no balcão. Em seguida vai à geladeira, retira o leite em caixinha, a margarina, o queijo muzzarela fatiado e o queijo cheedar processado fatiado, que o filho mais velho adora. Retirou também o presunto magro fatiado, todos dentro de um pote plástico que vai ao freezer e ao microondas. Colocou tudo em cima do balcão, ao lado da sanduicheira elétrica, preparou dois sanduíches e os colocou para torrar e o leite pôs na mesa. Enquanto torrava os sanduíches, o marido apareceu, deu bom dia à esposa e ela respondeu. De banho tomado, ele sentou-se no balcão próximo à cafeteira. Rejane abriu um dos armários e retirou os sucrilhos e os colocou na mesa, ao lado do leite e juntamente com os queijos, o presunto e a margarina. Rejane ouve vozes, são seus filhos chegando à copa/cozinha com mesa balcão que separa essa peça da sala de jantar, com uma mesa de quatro cadeiras, contígua à sala de estar, com um sofá de três lugares, um pequeno rack com a televisão de LED de 42 polegadas. O apartamento é cômodo, arrumado, mas minúsculo. O filho mais velho, de doze anos, chega primeiro à sala e dá bom dia aos pais. Encaminha-se à gaveta e retira quatro colheres de sobremesa, quatro facas e os coloca no balcão e aguarda. O marido encaminha-se para a mesa de jantar, levando duas canecas, duas colheres de sobremesa e duas facas, senta-se numa das cadeiras e aguarda. A filha mais nova de oito anos chega à sala eufórica e dá um bom dia cheio de alegria, em seguida dá um beijo no rosto do pai, implica com o irmão mais velho e vai ao balcão beijar o rosto da mãe. A mãe pede para ela sentar-se no balcão. 6:35 minutos, Rejane olha no relógio de parede, que está na mesma parede que divide as salas da cozinha. A torradeira avisa que os sanduíches estavam prontos. Ela abre o armário retira dois pratos de sobremesa e coloca um sanduíches em cada prato. Leva-os à mesa onde está seu marido. Enquanto isso, observa que o filho mais velho já colocou o leite na caneca da filha e ela está colocando o sucrilhos. Ele já está passando a margarina no pão e normalmente coloca uma fatia de queijo cheedar e uma fatia de presunto, às vezes, ele não come o presunto, às vezes, nem come o queijo cheedar, mas às vezes ele come o queijo muzzarela. Na mesa, o marido já colocou o café e está colocando o açúcar, ela senta-se na cadeira na frente dele, e serve-se de meia caneca de café, após coloca seis gotas de adoçante. Todos tomam o café da manhã em silêncio, às 6:50 minutos todos começam a levantar-se. Os filhos ajudam a colocar os itens na geladeira, o marido coloca as canecas, os pratos e os talheres na pia da cozinha, a mãe guarda o pão e o sucrilhos no armário. Rapidamente o marido e os filhos somem no pequeno corredor que leva aos dois quartos e um banheiro. Ela lava as louças da pia, num movimento mecânico e rápido e os coloca no escorredor de louças de plástico. E vai ao único e minúsculo banheiro do apartamento. No banheiro, passa batom e rímel nos cílios. Ouve vozes, a família está na sala. Sai do banheiro e todos estão prontos. O marido com cara de feliz e cansado. A filha mais nova contava alguma história para o pai e o irmão mais velho fazia perguntas à pequena irmã, tentando fazê-la ficar quieta por alguns instantes. 7h, o marido pega as chaves do carro e encaminha-se à porta de saída do apartamento, solicitando que as crianças o acompanhem, abre a porta e saí para o corredor gelado do edifício de sete andares. Rejane pega a bolsa que estava em cima do sofá e dirige-se à porta de saída já aberta pelo o marido. Olha para o corredor, o marido aguarda o elevador com as crianças em volta dele. Ela olha para dentro do apartamento, a visão era da mesa da jantar logo à esquerda da porta, um espaço e via-se o sofá da sala de estar e só a lateral do rack e da televisão. Olhou para a esquerda e viu o balcão da cozinha e a toalha de copa que ficou em cima. Do outro lado só o corredor. Pegou as chaves nas mãos e suspirou suavemente, com a sensação do dever cumprido, mais uma manhã em família, mais um dia para vencer. Ambas tem 39 anos. Rejane é filha mais nova da filha mais nova da Adelina. A Adelina vivia numa ampla casa em um sítio, a cinco quilômetros do centro da cidade. Rejane vive a 10 quilômetros do centro da cidade, em um apartamento de 60m². Rejane chegou a conhecer a avó, mulher forte, de bochechas rosadas e simpática. Enquanto que, Rejane, era frágil, tinha manchas no rosto e devido à vida estressante não era tão simpática.

 
Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.







Confira este conto na nossa publicação online Caderno Escape #02

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de Juliane Sperotto

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