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Escritora gaúcha Maya Falks acaba de lançar "Santuário", seu quinto livro

ENTREVISTA | LITERATURA

 

A publicação é da Macabéa Edições e reúne vinte contos que terminam por criar uma costura de romance a partir de seu cenário, a cidade ficcional Santuário, que dá nome ao livro.

Maya Falks - foto da autora por © Angela Nadin

Os temas que permeiam os contos são duros e muitas vezes prometem fazer com que o leitor tenha de lidar de maneira muito crua com as ações e tramas de seus personagens, que formam um apanhado do que condenamos socialmente, mas que vemos com uma frequência cada vez maior, como se brotassem nas cidades ou mesmo nas redes sociais.


Além da publicação de Santuário, Maya tem desenvolvido outros trabalhos relacionados à literatura e conversou com a revista Escape sobre seu livro e as possibilidades do universo literário.

© Maya Falks

Você está no lançamento de seu quinto livro, Santuário, em um tempo muito singular que é este de pandemia e confinamento. Tendo feito os outros lançamentos de maneira mais tradicional, como você compara a experiência de trazer ao público um livro no momento em que o contato com esse público se encontra tão restrito?

Acabei fazendo o lançamento virtual e percebi que, como tudo na vida, essa situação tem seus prós também. Comercialmente não é interessante, já que o lançamento é um momento marcante para as vendas do livro e no evento virtual isso não necessariamente acontece, entretanto no virtual não apenas pude contar com pessoas literalmente de várias partes do mundo como foi marcado por um bate-papo maravilhoso. No presencial seria somente eu autografando, no virtual trouxe conteúdo ao meu público com a presença de uma escritora e uma pesquisadora que também não poderiam estar em um evento presencial devido à distância. Gostei da experiência, creio que mesmo quando for possível fazer presencial, ainda planejarei o encontro virtual.


Embora Santuário lide com olhares delicados em sua construção, o livro aborda temas muito pesados como pobreza, violência, feminicídio e outras tantas questões sociais. Então, de que maneira é possível manter-se delicada em meio a questões tão tortuosas?

Eu sou uma pessoa extremamente sensível. A minha sensibilidade ultrapassa o nível da empatia e, honestamente, é fonte da maioria dos meus problemas. Mas, ao mesmo tempo, esse excesso de sensibilidade, essa facilidade imensa que tenho de sentir dores que não me pertencem individualmente também me permite compreender a dor do outro e entender que determinadas formas de dialogar com o outro podem agravar ainda mais a dor. Aprendi o diálogo com o sofrimento porque minha sobrevivência também depende desse mesmo tato, dessa mesma delicadeza. Embora eu já tenha sobrevivido a situações bastante violentas, sinto que lutar contra a violência sem ferir ainda mais as vítimas é a única forma de elas mesmas terem força para sobreviverem.


Santuário tem uma linha responsável pela costura e unidade dos contos que é justamente a cidade. O que a cidade fictícia de Santuário traz das cidades reais?

Tudo. O que eu faço em Santuário é escancarar os clichês e estereótipos, porque todas as pessoas que vivem lá podem ser facilmente encontradas em qualquer lugar, das pequenas vilas às grandes metrópoles. A diferença é que nas cidades grandes esses estereótipos se diluem no meio da população; não há um padre que lida com um grupo restrito de beatas, há vários padres e para cada um as beatas, assim como não há um corrupto fazendo o possível para tomar o poder, existem grupos inteiros brigando entre si. Fofoqueiros às centenas ou milhares, miseráveis, jovens descobrindo quem são, casas de prostituição, enfim, Santuário é um retrato de tudo que pode ser encontrado em qualquer lugar.


Quanto à estrutura do livro, você já declarou que ele teve início como um livro de contos, mas que acabou por se tornar um romance. Como se deu esse processo de transição de gêneros e estruturas narrativas? E por falar nisso, como normalmente se dá seu processo criativo para a construção de um livro?

O caso de Santuário foi bastante peculiar, porque comecei a escrever os contos tendo a ideia de situar todos os personagens na cidade-chave. Daí enquanto eu escrevia, iam surgindo situações em que personagens já citados em outros contos encaixavam e eu precisava dar a eles uma sequência lógica, como personagens complexos de uma narrativa longa mesmo. Como as histórias não dependem uma da outra para fazerem sentido (entretanto é importante reforçar que histórias mais pra frente entregam elementos das primeiras histórias, o único jeito de fugir completamente de spoiler é lendo do começo ao fim), entreguei à editora como um livro de contos, foram literalmente meses de debate até eu mesma me convencer que se trata de um romance exatamente porque a ligação entre as histórias vai muito além do cenário.

Quando ao meu processo criativo, ele é 100% dependente da narrativa. Cada história tem suas particularidades, nenhuma é criada e contada da mesma forma da outra. Umas exigem um planejamento, outras exigem um tempo longo de diálogo interno, outras são praticamente expelidas. Quem manda é a narrativa.


Além do lançamento de Santuário, você tem trabalhado com diversas outras plataformas e serviços ligados à literatura, caso do Blog Bibliofilia e do Escritório Literário. Como tem sido o desenvolvimento desses trabalhos e dos outros que você desenvolve e como é a vida de uma jovem escritora brasileira neste atual cenário?

É um paradoxo! Trabalhei quase 20 anos no mercado publicitário, nunca cheguei a ganhar exatamente muito bem, mas tinha uma renda, algumas garantias, coisa que hoje não tenho mais. O Bibliofilia é um trabalho voluntário pra contribuir com a propagação da literatura brasileira contemporânea, apenas peço que me ajude quem puder, já que não tenho uma renda fixa há mais de dois anos. O Escritório criei exatamente para tentar viver do que amo. Ou melhor, sobreviver. Consigo esporadicamente alguns trabalhos dentro dos serviços que ofereço, mas o trabalho criativo sempre sofre muito preconceito ou é o primeiro a ser cortado nos momentos de dificuldade. Não vou embelezar o que é feio: tem sido difícil; tem sido pesado na questão do tempo porque não tenho folga, pesado em questão de dinheiro porque não recebo nem em volume, nem em frequência, e emocionalmente, pela insegurança toda.

Ao mesmo tempo, não me imagino fazendo mais nada. Já fiz muita coisa nessa vida e sei que agora encontrei meu lugar. É um lugar cheio de problemas, é um lugar que nunca vai me dar tranquilidade, mas é onde eu pertenço. Amo o que faço mais do que tudo, literatura não é só algo que gosto de fazer, é o que me mantém viva.


Como foi seu processo de descoberta como escritora e o que mantém você escrevendo ao longo destes anos?

Foi algo extremamente natural na minha vida, comecei a fazer sem saber que era isso que eu estava fazendo. Criar histórias era minha brincadeira favorita, e nunca deixou de ser. Levei muito tempo pra entender que isso era ser escritora, passei muitos anos sonhando em ser escritora ao mesmo tempo que já escrevia porque pra mim era o óbvio, o natural da minha vida. Não foi uma escolha, é quem eu sou, sempre fui e sempre serei.

Acho que é exatamente isso que me mantém escrevendo: sem isso, eu não existo.


O que você, enquanto escritora, espera que seus leitores encontrem nas páginas de Santuário? E como você espera que esses leitores saíam dessa experiência de leitura?

Espero que encontrem todo o amor que dediquei a esse livro. Que riem, chorem, se apaixonem, sintam raiva, ódio, amor, angústia, alegria, alívio. Quero que sintam Santuário, se sintam em Santuário, se sintam parte de Santuário. Quero que terminem o livro não como uma simples leitura, mas como uma experiência, como se, ao longo daquelas páginas, cada leitor, cada leitora, tenha de fato passeados por aquelas ruas e suas histórias.

Alguns retornos que tive dão conta exatamente disso, das pessoas dizendo que se sentiram dentro da cidade, como moradores dela, e isso vale o mundo pra mim. Santuário nasceu pra ser um lar para todos.


Leia um trecho de Santuário, retirado do conto Pit e Bull, de Maya Falks:

"(...) Na terceira casa para lá do poste de luz com a lâmpada queimada há anos, na Rua da Amargura, moravam as irmãs Pitbull. Não, Pitbull não era o sobrenome das gêmeas Letícia e Cátia. O apelido se devia ao temperamento forte das moças, que fazia a vizinhança crer que um dia uma delas andaria pelas ruas da pequena cidade de Santuário com os dentes cravados no tornozelo de alguém. Mesmo gêmeas, era fácil identificar quem era a Pit e quem era a Bull. Pit, três minutos mais velha, era a que latia; Bull, quinze centímetros mais baixa, era a que rosnava. Elas reuniam em si praticamente todos os clichês de personagens decidade pequena do interior: eram fofoqueiras, intriguentas,barraqueiras e geralmente mentirosas.(...)"

 

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Texto da matéria e Entrevista: Theo G. Alves | Jornalista Responsável: ++++++ ++++ | Revisão Ortográfica: Juliane Sperotto | Editoração, Layout e Web Design: Daniel Cunha 


Para maiores informações mande o seu e-mail para revistadigitalescape@gmail.com

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