Fahrenheit 451

Atualizado: 12 de ago. de 2020

COLUNA

SUGESTÕES DE LEITURA

por Elvira Hoffmann


“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury (1920-2012), é um romance de ficção científica que conseguiu alcançar um lugar privilegiado na grande literatura. Publicado em 1953, descreve um tempo e uma sociedade distópicas em que bombeiros perderam sua função, porque as casas já não pegam fogo. Por isso, foram destinados a, mediante delações, pôr fogo em bibliotecas. Os livros estão proibidos, a literatura tornou-se clandestina. Por quê? Porque as pessoas não devem sofrer e a leitura, fazendo-as pensar e refletir, levando-as ao sofrimento. Desnecessário, inútil, perigoso, transgressivo. Pensar é transgredir, sonhar novos mundos, criticar o que não pode ser criticado. O bombeiro Montag, personagem principal, é encarregado, junto a sua equipe, de queimar as bibliotecas clandestinas. Um dos episódios mais impactantes descreve o suicídio de uma senhora que se recusa a abandonar seus livros amados e também se transforma em cinzas.

O título diz respeito ao grau de combustão do papel na escala de Fahrenheit.

Nas cidades, não existem jardins públicos nem bancos de descanso, já que conversar não seria coisa de gente normal. O que há em grande quantidade são enormes aparelhos de TV's, cobrindo as paredes das residências e as paredes externas dos edifícios da cidade. A drogadição é estimulada, custa barato e serve para estimular o trabalha cotidiano, as relações sexuais ou o sono noturno. Um rádio de ouvido, percursor dos atuais, toca todo tempo uma melodia hipnótica. Carros atropelam transeuntes distraídos, é uma terra violenta. As pessoas são extremamente passivas e indiferentes. Não existe nenhuma empatia, os vizinhos praticam sem remorso a delação. A própria esposa delata Montag porque ele começa a adotar posturas “estranhas e inconvenientes”, no conceito repressor e vigilante da sociedade. O que vale, na verdade, é a relação interativa com a tela de televisão, que manipula sem dó as mentes submissas.

Então, por que ler “Fahrenheit 451”? Porque é uma obra muito, muito atual. Na verdade, em tempos de alienação e conformismo da modernidade, em que a humanidade, em sua grande maioria, se entrega a um mundo de aparências (atenção! selfies! redes sociais!), à fascinação das fakenews diárias, à sedução das pós-verdades manipuladoras dos comportamentos, Bradbury sacode esse homem atual, egocêntrico, fechado, voltado a princípios utilitários, ao comodismo sem contestação. Um ser coisificado. É uma obra que serve de alerta ao tipo de humanidade de nossos dias, obra que nos provoca e nos desafia a analisar nosso universo de convenções e ideologias baratas. É preciso criar uma nova existência mais resistente ao sistema, uma promessa de renascimento da civilização, em bases mais humanas. É quando Mortag conhece um novo e subversivo grupo de gente. E se transforma em um Homem-Livro.

“As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro”.

Este livro foi duas vezes transformado em filme, excelentes filmes.

Primeira adaptação lançada em 1966, com direção de François Truffaut (França). Prêmios: BAFTA, 1967. Festival de Veneza, 1966. Indicação ao Leão de Ouro.

Segunda adaptação lançada em 2018, com direção de Ramin Bahrani (EUA), com excelentes críticas.

 

Elvira Hoffmann é formada em Letras e Piano. Mestre em Semiótica. Foi professora do Estado (RS) e da Unisinos. Teve também cargos de direção em ambas. Hoje, aposentada, ministra aulas como voluntária no Pró Maior da Universidade, na área de Humanidades.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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