Festa sem retorno

CRÔNICA

Card a partir da arte (detalhe) do ilustrador e designer Felix Scheinberger

O som animava a festa, a luz neon indireta iluminava algumas pessoas, a pista de dança estava lotada, com muito movimento de braços e pernas balançando ao som da música eletrônica. Todos com copos nas mãos, diversos tipos de bebidas eram servidas e sorvidas pelos frequentadores da boate do momento. A casa de festas estava sempre lotada e era ponto de encontro da galera que gosta de se encontrar e dançar. Camila está entre essas pessoas curtindo a festa com os amigos, e já tomou inúmeros copos de vodca com energético, sua bebida preferida. Ao ir ao banheiro percebe que bebera demais e tudo está começando a rodar. Consegue retornar ao grupo de amigos que ainda dançam na pista e comenta com outra amiga que precisa ir embora, pois havia bebido demais e estava tonta. A amiga sugere chamar um carro de aplicativo que é mais seguro. Camila não enxerga direito o telefone, está zonza e mesmo assim pede um carro com o celular. Apoiando-se nas paredes e até em algumas pessoas consegue chegar à porta de saída da boate. O ar fresco da rua ajuda-a a respirar um pouco melhor, mas ainda sente a tontura. Visualiza o carro e entra na porta de trás. Deseja muito chegar logo em casa para poder se recuperar do porre.


Fala alguma coisa ao motorista, que nem lembra mais, e assim que o veículo começa a rodar ela pega no sono. Não sabe quanto tempo passou e quanto tempo permaneceu desacordada, mas ao abrir os olhos e ainda zonza da bebida percebe que o carro está parado. Observa através das janelas do carro algumas árvores na escuridão da noite. É o que consegue lembrar. As ideias estão difusas e as imagens também. Sua visão fica nebulosa e, só vê sombras e vultos. A partir desse momento ela consegue ter apenas alguns momentos de lucidez e outros de apagamento.


Nesse estupor em que se encontra, Camila percebe que não consegue controlar suas ações ou sua fala, e que seu corpo está mole. Num desses lampejos de lucidez em que consegue perceber o que se passa, vê o vulto do motorista, que abre a porta de trás do veículo, e em breves flashes na escuridão da noite, percebe que o homem tira-lhe o vestido, deita-a no banco e se posiciona em cima dela. Ela não consegue mover os braços, tampouco a boca, ou qualquer outro membro de seu corpo. Ela tenta se concentrar no que está acontecendo e ouve algumas palavras que o homem lhe profere: “Eu te vi na festa... Você é muito linda... Coloquei um remedinho em sua bebida... Nem tente se mover, você é toda minha agora... Fica paradinha, é assim que eu gosto...”. Camila não consegue se defender, permanece zonza e a noite escura só aumenta seu desespero. Chora até que suas lágrimas caem de seus olhos, mas não consegue reagir. No banco de trás daquele carro Camila está sendo estuprada, violentada e invadida. O motorista é agressivo, machuca-a com sua força e com suas investidas libidinosas. Camila não sente nada, nem o próprio corpo, tampouco o corpo que lhe pressiona no banco. Não consegue reagir, seus membros não lhe obedecem e não consegue gritar, sua voz não sai de sua boca torta. Ainda tonta e com visão difusa, percebe alguns movimentos, tem noção do que está acontecendo, mas não consegue ter qualquer ação. O homem trata-a como uma boneca, de carne e osso, mas sem qualquer atitude. Revira-a e desvira-a, tenta colocar o falo em sua boca, mas desiste furioso, porque não há movimentos que o satisfaçam. Não há como descrever tudo o que aconteceu no banco de trás daquele carro. É surreal, violento, agressivo e covarde.


O tempo é impreciso, tudo acontece muito rápido ou demora a passar. Camila lembra-se que está dopada e luta consigo mesma para tentar reagir àquela agressão, até que desmaia. Quando consegue abrir os olhos novamente está amanhecendo. Visualiza os primeiros raios de sol através das árvores próximas ao veículo parado. Deitada no banco de trás, consegue erguer a cabeça, e com dificuldade um pouco do próprio corpo. Está com muita dor que nem tem certeza de onde principia ou acaba. Repara que o banco está sujo de vermelho vivo, será o sangue dela? Nesse momento o motorista abre a porta do carro mais que depressa lhe tapa a boca com a mão, deita-lhe a cabeça no banco. A mão do homem contém alguns comprimidos que ele a força engolir. Em segundos, tudo volta a rodar, ela fica zonza e a visão deturpada retorna, ela não sente mais nada. Novamente não consegue se mover, ou obter qualquer ação de seus membros. O motorista retoma o abuso, a violência, a devassidão e as investidas sexuais sem consentimento.


Com um corpo sem reação, a visão turva e a lembrança de sua tentativa de recuperação. Vem-lhe à mente o sangue do banco, a situação nefasta e cruel em que se encontra, e a morbidez de seu próprio corpo. Distingue o outro corpo que está por cima dela arfando e se movimentando, sente nojo, ódio e desespero. Deseja a morte. Sem defesas, o que mais ela poderia desejar diante dessa situação? Num breve momento de lucidez, abre os olhos o máximo que pode e vê os olhos negros de seu agressor.Tenta desesperadamente lhe proferir alguma palavra, em seu pensamento consegue dizer: “Desgraçado”. Fecha os olhos e nada mais vê, apenas não respira mais.

 

Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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