Hora do enfrentamento II

Atualizado: 7 de ago. de 2020

Eu tinha uns oito ou nove anos de idade e quase todos os dias eu ou algum dos meus irmãos éramos incumbidos de ir ao armazém para fazer algumas compras do dia. Às vezes de tarde, às vezes de manhã. Quase sempre era eu quem ia, pois aproveitava para dar um passeiozinho. Às vezes, era foda carregar as pesadas sacolas penduradas no antebraço. Uma família com seis pessoas, sendo quatro crianças com menos de 10 anos de idade... Imagina a comilança! Muitas vezes, carregava sacos de açúcar, arroz ou farinha de 10 quilos em sacolas de palha, que causavam sulcos na pele pelo trajeto de muitos metros entre o armazém e a nossa casa.


Lembro de às vezes me sentir frágil e questionar o porquê de ter de ser assim tão pesado. Mas outras vezes, eu me sentia forte! Confiante de poder carregar aquele peso em benefício da família.


Numa bela manhã, com o papel das compras na mão, listadas com a letra da minha mãe, fui ao tal armazém. Cheguei e não vi ninguém por la. Tudo meio escuro, pouca iluminação natural e os balcões de madeira escura deixavam tudo mais sombrio naquele horário. Olhei para todos os lados, esperei um pouco e nada. Minutos depois, olhei para o baleiro. Estava recheado de balas coloridas, papeis luminosos, outros opacos, mas que remetiam à imaginação de serem muito doces e saborosos. Avistei o meu chocolate preferido: o Batom. Hummmm, o Batom... eu lembrei imediatamente da propaganda que rolava na época: “compre batom... compre batom...”


Putz... nunca uma campanha publicitária faria tanto sentido, se eu tivesse dinheiro para comprar! Olhei aquele baleiro novamente. Este estava no balcão mais alto. Eu fiquei na pontinha dos pés e, não sei como, consegui abrir aquela tampa giratória. Peguei um Batom, com as pernas tremendo, mãos suadas, rosto quente e frio na barriga. Minha vontade de comer aquele chocolate era tanta que eu não enxergava mais nada na minha frente.

Abri o dito cujo com todo o cuidado, circundando aquele papel rigidamente, para que ele desenrolasse quase intacto. Dei a primeira dentada e, não lembro, em toda a minha longa trajetória de oito ou nove anos de idade ter sentido um gosto tão mágico e delicioso. O chocolate derreteu na minha boca de uma forma que sinto o gosto até hoje.

Estava na metade do chocolate quando chegou a filha da dona do armazém.


– Oi, tu tem a listinha? - Ela já conhecia a rotina. Chegava la, dava a lista das compras com a letra da minha mãe e ela vasculhava as prateleiras escuras, separando os mantimentos que ficavam atrás do balcão. Enquanto isso, eu comia a outra metade do Batom olhando para o olhar dela.


Tudo que estava listado no papel ela botava sobre o balcão e ia anotando cada item no caderninho, já que meu pai comprava fiado para pagar “tudinho num montão no fim do mês”. Eu ali, com aquele papel do chocolate na mão, meio escondido, meio à mostra, pois não queria que ela visse, mas também não queria passar por ladrazinha. Ela diz: - “é para anotar este Batom também?”. Num gaguejo desgraçado eu disse que sim.


Peguei as compras, enfiei na sacola, subi a lomba e cheguei em casa, com um peso danado na consciência, e com medo de ser descoberta pelo meu pai. Não sabia qual seria a reação dele, pois, pelo menos eu, nunca tinha pegado nada fora da lista de compras. Não contei nada para minha mãe. Também não sabia qual seria a reação dela.


A coisa funcionava assim: nunca comprávamos supérfluos durante a semana. Raríssimas vezes comíamos algum chocolate ou tomávamos refrigerante durante a semana. Lembro que nossos lanches da escola eram, dias a fio, pão com banana. Quando o pai comprava patê, ele pedia para passar só um pouquinho no pão – “é só para sentir o gostinho”, dizia ele. De resto, era pão com margarina mesmo. Mas em épocas de vacas gordinhas, o pai burlava as contas e aparecia com um chocolatinho ou “alguma coisa gostosa” em casa. Dito isto, em minha mente, naquele dia, não poderia cogitar comprar aquele supérfluo. Mas já que havia sido pega com o Batom na mão, aquela angústia iria me tomar por muitos dias, pois o pai pagava “tudinho num montão no fim do mês”.


Como eu iria encarar a dona do armazém até o final daquele mês? Fiquei imaginando o que ela estaria pensando a meu respeito... Mil pensamentos me tiraram o sono por dias.

Pelo menos uma vez ao mês, toda a família se reunia em volta da mesa para que meu pai apresentasse as anotações e mostrasse como pagaria as contas com o seu salário escasso e com o rendimento da minha mãe que, naquela época, cuidava de algumas crianças da vizinhança para ajudar no sustento da casa.


Final do mês chegou e a família reunida à mesa. Eu, sentada ao lado do meu pai, via a palavra Batom naquela lista. Eu tremia feito vara verde, aguardando o momento do enfrentamento.

- Quem comprou este chocolate? – perguntou. Não houve resposta.


- Este Batom aqui na lista, quem comprou? - repetiu meu pai.


- Fui eu. – respondi. Todos me olharam!


Meu pai veio: - Tati, tu sabe que eu nunca vou proibir vocês de comer alguma coisa que vocês tenham vontade, mas precisam pedir. Não da para ficar pegando coisas e anotando. Assim, a gente perde o controle. Quando quiserem comer “alguma coisa gostosa” falem antes.


Acabaram as anotações das contas, tudo feito, ajustado, fechou-se o caderno e cada um foi fazer o que estava fazendo antes da reunião.


No outro dia, fui ao armazém, com nova lista e com a cabeça erguida. Após o confronto com a dona do armazém, com meu pai e comigo mesma pensei: “não sou trombadinha. Meus pais não são tão bravos assim. Eu só preciso andar na linha”.

 

 Cláudia Kunst, produtora cultural e jornalista. Produz shows, bandas e projetos 20 anos. É quase uma workaholic e é apaixonada por música. Adora tatuagens, carros antigos e botas empoeiradas e um pouco de solitude. 
 

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