Hora do enfrentamento III

Atualizado: 7 de ago. de 2020

Nem sempre eu fui uma pessoa discreta. Quando criança, usando as palavras da minha mãe, eu era uma figura digamos, saliente. Eu queria sempre estar entre dos adultos, ouvindo a conversa deles e dando pitacos. Minha mãe ficava muito brava, pois ela sempre foi muito discreta e a ordem era que as crianças brincassem em outro ambiente enquanto os adultos conversavam. Eu não obedecia. E quando obedecia, era porque o medo já havia atingido o nível hard, com olhares furiosos seguido da frase: “depois a gente conversa”.


Depois da minha primeira infância saliente, passei boa parte da vida, agindo discreta e ponderadamente. Não ser saliente passou a ser premissa deste então e raras as vezes que tive atitudes agressivas ou descontroladas. Pedir licença, não ultrapassar a linha limítrofe, não exagerar nas minhas manifestações e, especialmente não ser inconveniente sempre foram algumas das minhas regras pessoais. Isto incluía não tietar os artistas que eu gostava, especialmente no trabalho, já que atuo diretamente no ambiente artístico. Se tivesse oportunidade eu interagia, mas nunca entrei em um camarim sem pedir licença ou sem ser convidada. Nem pedia para tirar fotos, se percebesse que poderia estar incomodando. Exagero? Talvez! Mas via como bom senso.


Por muitos anos, eu não havia me dado conta disto de forma consciente. E ontem recordei de um episódio que ocorreu diretamente ligado a este assunto, em São Paulo, há quatro anos, no show do Amorphis.


Eu conheci a banda em meados da década de 1990, num período em que meus irmãos estavam enveredando fortemente para o death e black metal e eu sempre pegava emprestado do meu irmão mais novo, o lindo álbum Elegy, lançado em 1996. Passei a gostar da banda desde então.


Mas a grande virada aconteceu em 2006 quando Amorphis lançou o álbum Eclipse, já com o novo vocalista Tomi Joutsen. Dias após o seu lançamento, meu amigo Everton Klaus​ me chamou: - “Clau, tu já ouviu o novo do Amorphis?”. E ele, então me enviou todas as músicas por e-mail para eu conferi uma a uma. Aquilo não era deste mundo, eu pensei. O vocalista Tomi Joutsen havia assumido os vocais naquele lançamento e aquilo era digno, magnífico e supremo. O álbum Eclipse foi a chave para que Amorphis se tornasse uma das minhas bandas preferidas.


Em 2016, a banda estava completando 10 anos do lançamento do álbum Eclipse e o dia 27 de maio daquele ano foi quando eu vi os caras pela primeira vez. Chamei meu irmão mais novo e fomos até São Paulo assistir ao show.


Sim! Eu assisti ao show extasiada, e assim que notei que estava chegando ao fim, desci do mezanino e fui até a frente do palco para tirar algumas fotos de perto. Ali, pensei: “vou ficar aqui até fecharem as portas da casa para ver se consigo um registro com a banda na saída”. Seria tietagem pura! O show acabou e avisei meu irmão: “eu vou ficar mais um pouco, vai que os caras passem por aqui”... meu irmão foi para fora e eu fiquei. O salão foi ficando vazio e eu parada, num canto observando. Olhei para o lado e vi uma escadaria onde algumas garotas estavam cochichando em meio às risadas. Aproximei-me e perguntei se o camarim ficava “lá em cima”. Elas disseram que sim e, pelo entusiasmo, supus que elas aguardavam para subir. “Nunca faço isso, mas hoje eu vou me infiltrar e vou conhecer meus ídolos. É minha chance de dizer para eles o quão fã eu sou” - pensei. Foi então que veio alguém da produção e perguntou rapidamente: - “vocês que vão subir?”. As garotas - que eram amigas - se entreolharam, em seguida olharam para mim e responderam: - “sim”. Eu fiz cara de paisagem, pois não fazia parte do “combinado” e fiquei calada enquanto o produtor saiu para fazer outras coisas.


Alguns minutos depois, ele retornou e disse: - “Eram três, né?”. Eu fiquei na minha, mas acho que ele sacou que eu não fazia parte do grupo “convidado”. Mesmo assim ele não falou nada, eu segui escada acima e naqueles degraus, eu pude ouvir as vozes das pessoas que se concentravam num corredor enorme. Estavam la: Esa, Tomi Joutsen, Niclas (ainda era o baixista), Tomi Koivusaari, Santeri e o Jan. Deus! Eu estava em frente ao Amorphis!


Foi realmente incrível. No meu inglês enrolado, consegui dizer a eles o quanto considerava a música da banda incrível e, especialmente forte e visceral. Mostrei minha tatuagem ao guitarrista Koivusaari e ele achou incrível e me mostrou que tinha tatuado o mesmo desenho em seu antebraço. Que momento!


Numa fração de segundos me dei conta de que estava ali sem ser convidada. Sim! Pode parecer bobo, pode parecer pequeno, pode ser que eu esteja exagerando e que isto seja normal para muitas pessoas. Mas não para mim. Consegui tirar fotos com quase todos os integrantes da banda, com exceção do baterista Jan Rachberger que devia estar se recompondo após a apresentação. Eles foram extremamente simpáticos! E, com boa educação, fui me apresentar e agradecer ao Eric de Haas, produtor da turnê da banda na América Latina e com quem eu já trocava alguns e-mails na época.


Registrei aquele momento com todo carinho, cuidando para não perder o celular na saída e fui embora. Do lado de fora, meu irmão me aguardava, tomando sua cerveja e notou no meu semblante o quão feliz eu estava. Fomos caminhando para o hotel, abraçados, bebendo cerveja e cantando as músicas do show como bons irmãos que somos. Eu estava feliz, liberta e emocionada com toda a saliência simbólica que aquela noite me proporcionou.

 

Cláudia Kunst, produtora cultural e jornalista. Produz shows, bandas e projetos 20 anos. É quase uma workaholic e é apaixonada por música. Adora tatuagens, carros antigos e botas empoeiradas e um pouco de solitude.
  

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