Liberdade e identidade

Atualizado: 5 de jun. de 2020


No de 2019, o fazer literário perdeu uma grande escritora, mas suas obras tornaram a ela e os temas abordados universais. Bendita Literatura. Em seus livros, percebe-se sua luta e a de seu povo, seus pensamentos como ser humano com direitos, deveres, qualidades e defeitos, um ser pensante e que vive em uma sociedade, como qualquer outro. Felizmente, a voz de Toni Morrison está sedimentada e permanecerá eterna, enquanto o mundo estiver disposto a abrir os olhos e a mente para reparar e observar a roda da vida individual e ao mesmo tempo coletiva, pois uma é o reflexo da outra. A ganhadora do Prêmio Nobel de 1993, por sua obra e de outros prêmios importantes no âmbito literário, foi uma mulher a frente de seu tempo. Desde cedo teve de lidar com a baixa renda familiar, com o preconceito por sua cor da pele, por sua condição de gênero e principalmente, por sua determinação e coragem de não se calar diante de todas essas adversidades, diante de aspectos essenciais da realidade americana que atravessou séculos.

Seu livro de estreia O Olho mais azul, de 1970, é um clássico. Qualquer leitor se identificaria: uma pessoa que deseja ser outra, para que possa ter mais aceitação por parte das exigências da sociedade em que vive. É um conto sobre uma garota negra que sonha em ter olhos azuis. Quem nunca desejou ter os requisitos de melhor das raças, o gênero mais reconhecido ou a beleza que todos almejam? Associando isso ao que é “correto” e aceito.

O livro que lhe projetou internacionalmente foi o Song of Solomon, de 1977, um texto exemplar, juntando gêneros literários como o realismo mágico, o bildungsroman e a prosa épica. Em sua narrativa ficcional recupera o passado de Solomom através de seu bisneto, num período anterior à primeiras leis de anti segregação americanas. Descreve mulheres forte e com atitude, homens em busca de aceitação ou de conquistas desprezadas, permeado de ações de violência, inocentes e bandidos, o ódio, e que resumem que ninguém é exclusivamente bom ou ruim.

O livro Beloved (Amada), de 1987, recebeu o Prêmio Pulitzer e ganhou adaptação para o cinema, estrelado por Oprah Winfrey e Danny Glover e é um dos mais conhecidos, e faz parte da trilogia: Amada, Jazz e Paraíso. Trata-se de um romance ambientado no final do século XIX, em que as pessoas começam a se adaptar com o fim da escravidão. Uma escrava fugitiva, e durante essa fuga tem uma filha, mas vive com o remorso de ter perdido uma de suas filhas antes e tem de lidar com o fantasma dessa filha. O fantasma ou essa filha tem o mesmo nome do livro, Amada. Uma verdade terrível será revelada, numa narrativa lírica e um retrato cruel da condição dos negros nos Estados Unidos. Triste e libertador, para pensar e refletir sobre as mazelas que cicatrizam a alma.

Outro marco na carreira dessa exemplar escritora é o livro Jazz, de 1992, está ambientado no Harlem de Nova Iorque na década de 1920, narra uma história de traição, assassinato e o prenúncio dos duros anos que viriam a seguir. Uma história de amor e obsessão, reunindo esperanças de um mundo melhor, temores por suas próprias vidas e a indigna condição humana dos negros nas cidades. O estilo de escrita flerta com o título do livro, trazendo uma leitura vivaz e estimulante.

Finalizando a trilogia, o livro Paraíso, de 1998, explora a história afro-americada desde meados do século XIX até o final do século XX. Com múltiplas vozes narrativas e saltos temporais, descreve o preconceito e a conquista da identidade numa cidade habitada somente por negros refugiados. Com um sistemas de regras rígidas, a ilusão de paz entra em choque com a chegada de forasteiros e de uma mulher branca.

Toni Morrison, escreveu outros livros e simplesmente, é recomendável a leitura, perceber o olhar de quem sentiu na própria pele, ou carrega em sua árvore genealógica guerreiros e humanos que enfrentam a intolerância, a crueldade e a incerteza de seu valor, salientado por julgadores atrozes.

Apesar de, praticamente, em toda a sua obra a presença feminina é bastante desenvolvida, principalmente, por questões sobre os Direitos das Mulheres, ela declarou diversas vezes, que nem o matriarcado e tampouco o patriarcado devem ser dominantes, mas sim, conviverem em pé de igualdade.

Toni Morrison transformou-se em uma das referências na Literatura, com textos criativos e abordando temas que devem ser debatidos e esclarecidos. Nada de ocultar ou menosprezar questões moralmente ou socialmente discriminadas, subjugadas ou intoleráveis. Para quê esconder debaixo do tapete pra que ninguém saiba ou tenha consciência do que muitos sofrem ou sofreram. E como isso tudo influi no desenvolvimento humano, na evolução e principalmente, nas realidades atuais, no hoje. Diante de tudo isso, devemos “devorar” os livros dessa escritora, e deixa-los nos tocar, para que possamos compreender um pouco mais sobre o outro, sobre preconceitos e sobre humanidade.

 
Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

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