Longa breve vida

CRÔNICA

A luz era muito branca, daquelas de cegar qualquer um e parecia estar bem próxima ao rosto. Uma estranha movimentação de pessoas ao redor e um cheiro insuportável de algo parecido com amônia. Percebia-se um sinal de bip ao longe, até que o sinal ficou constante e tudo se apagou. Às 23h e 18 minutos, do dia 10 de junho de 2020, foi declarado o óbito: enfarto fulminante do miocárdio. Marcelo chegou ao hospital por volta das 22 horas desacordado. Logo as enfermeiras o assistiram e carregando-o na maca sumiram pelas portas do hospital. Ele estava se sentindo mal ha alguns dias, mas não dera importância, coisas da idade, um mau jeito ou apenas aquele travamento de uma vida sedentária.


Havia apenas dois anos que seu divórcio foi concluído após um casamento de 25 anos e nesse tempo resolveu relaxar, e tanto relaxamento que o fez deixar de lado as coisas simples como manter uma alimentação saudável, dormia pouco e gostava muito de churrascos, regados a carnes gordas e bebidas com os amigos. Na maior parte desse tempo entregou-se por completo ao trabalho de Representante de Vendas, tanto que conseguiu uma vaga para viajar pelo Estado visitando os clientes. De Hotel em Hotel, de estrada em estrada, ele percorria as cidades e vivia intensamente a rotina de vendedor, com cotas a cumprir e prazos para concluir.


Em seu último ano de casado, seu filho mais velho havia se formado em Direito com apenas 22 anos. Dera-lhe muito orgulho ver o nome de seu filho ser chamado na cerimônia, enquanto ele, a esposa e a filha assistiam da plateia. Chegou a chorar de emoção e olha que era difícil vê-lo chorar, nem mesmo quando sua mãe morrera um ano antes, também por problemas no coração. Sua mãe já sofria há algum tempo, e teve dois infartos antes de retirar-se desse mundo. Dois anos antes da formatura de seu filho, a sua filha havia se casado e ele a levou até o altar. Com toda a pompa de casamento religioso na igreja e festa abundante depois. O noivo não era o preferido de Marcelo, mas a filha que o tinha escolhido, então ele só aceitava com reticências e evitava encontrar-se com o genro.


No aniversário de 20 anos de casado ele e sua esposa fizeram uma viagem, a tal de segunda Lua-de-Mel, nada muito luxuoso, mas havia muito tempo que não viajavam e ainda mais sozinhos. Foram para uma praia do Nordeste brasileiro e permaneceram por sete dias, conforme o pacote previa. De alguma forma, era também uma tentativa de reativar o amor de casal que um dia os unira e que gerara dois filhos. Esses dias foram bons, mas não o suficiente para reacender a paixão entre os dois, a relação já havia se desgastado de forma irreversível e só faltava a coragem para definirem a situação e informarem aos filhos. Mesmo assim decidiram espera mais um pouco.


Marcelo andava desgostoso da vida, não ria mais, estava sempre cansado e só queria dormir ou ficar em paz. O dia-a-dia como Vendedor de peças para tratores era estressante, os chefes cobravam muito e as vendas nunca eram suficientes. Em casa também não tinha sossego, eram os filhos reclamando de algo, ou a mulher reclamando que não tinha tempo para todas as tarefas de mãe e profissional. Sem contar que ela exigia que Marcelo a ajudasse com a arrumação da casa, com o preparo da comida para a família ou simplesmente, para baixar a tampa do vaso sanitário, ou não jogar a toalha de banho na cama e sim no cesto de roupa suja. Pequeno cotidiano com grandes responsabilidades. Os filhos adolescentes eram uma preocupação a mais, nunca queriam ajudar e era difícil controlar horários, internet, estudos e planos para o futuro deles.


Com mais ou menos uma década de casamento, e que ainda conservassem algum frescor da juventude, o casal era mais unido, os filhos pequenos ainda obedeciam e respeitam muito o pai e a mãe. A vida perecia mais leve e tinham certa ajuda da família. A avó paterna ficava com as crianças de vez em quando, e até cozinhava para os netos. O casal ainda se amava e faziam planos para o futuro, além de envelhecerem juntos e encaminhar os filhos para a vida. Marcelo e a esposa trabalhavam fora, cada um em seu próprio emprego e dividiam as ocorrências do dia ao deitarem-se na cama, se amavam e caiam no sono satisfeitos. Isso era possível porque os filhos dormiam cedo.


O casamento de Marcelo foi simples, com igreja, afinal eram ambos católicos e as famílias também. A festa foi um pouco mais modesta, pois nenhuma das famílias tinha condições de algo grandioso. Apesar da simplicidade foi um dia muito feliz, com muitas risadas, comidas, bebidas e até dança. Um ano após o casamento nascia o primeiro filho, e dois anos depois a filha. Tudo conforme o esperado por ambos e pelas respectivas famílias, afinal o namoro de três anos surtira resultados. Marcelo ainda aprendia a ser Vendedor, tinha disposição para o trabalho e também para o aprendizado. Iniciava-se assim um caminho de homem casado, pai de família, sério e responsável.


Os anos de namoro foram muito felizes. Marcelo conhecera sua futura esposa num aniversário de 15 anos de uma prima. Foi amor à primeira vista. Logo houve uma conexão e passaram a conversar várias vezes, em pouco tempo engataram namoro firme, com a benção dos pais. O período de namoro, e posterior noivado, foram permeados de alegrias, conhecimento um do outro, beijos suculentos, carinhos audazes e também de definições. Ambos queriam casar e ter filhos, afinal era o que a vida exigia, e as famílias também. Marcelo ainda não havia se fixado num único trabalho, tinha ainda tempo para experimentar e chegou a trabalhar num supermercado, depois numa oficina mecânica e tentou fazer vestibular por três vezes, sem sucesso, pois não era muito chegado aos estudos.


Marcelo concluíra o Ensino Médio com esforço e muita ajuda. Tinha sérios problemas com Português e História, era muita leitura pra cabeça dela e vivia se confundindo. Repetira o primeiro ano e o segundo ano também, no terceiro resolveu fazer um supletivo, para terminar de vez aquela etapa da vida. Em casa, era um filho preguiçoso e vivia reclamando de tudo, por mais que sua mãe fosse zelosa e fazia tudo para ele. Comida sempre pronta, a roupa sempre lavada e dobrada, a única cobrança era que estudasse para que tomasse um rumo na vida. Mesmo com dificuldades, nunca lhe faltara nada. Quando seu pai morreu demoraram um pouco para retomarem a vida, mas sua mãe era doceira de mão cheia e seus irmãos mais velhos já trabalhavam, então ajudavam no sustento de todos e nas necessidades de Marcelo que era o filho mais novo.


Durante a infância teve muitos amigos e adorava brincar na rua até que sua mãe o chamasse para dentro de casa. Era uma briga convencê-lo o tomar banho e jantar na mesa com a família, queria continuar brincando. Aliás, adorava brincar de polícia e ladrão com os amigos, e ele sempre queria ser a polícia, que corria atrás dos bandidos pelas ruas do bairro até que prendia todos. Também gostava de jogar bola, no qual, não era muito bom, mas como goleiro até que conseguia divertir-se. Na escola era conversador, tinha notas baixas e saia correndo assim que o sinal soava, para ir brincar com os amigos na rua. Sua mãe insistia para que Marcelo fizesse o dever de casa que a professora pedia, suplicava para que lesse os livros e tentava ajuda-lo a decorar a tabuada.


Marcelo era o último de quatro filhos e o temporão. Seu irmão mais velho tinha 15 anos a mais que ele e a irmãs do meio, tinham 10 e 9 anos a mais, respectivamente. Marcelo foi mimado, cuidado e muito amado por toda a família. Enchia a casa com suas risadas, com suas travessuras e com aquela curiosidade que toda criança tem na primeira infância. Era o mais novo e a família o poupava de muitas coisas, querendo protege-lo e desejando que ele fosse melhor. Afirmavam que era muito mais inteligente que todos e que era um garoto muito esperto. Tanto que nunca recebera uma palmada ou sequer alguma surra como os outros irmãos, sempre um deles o defendia, alegando ser apenas uma criança.


Sua mãe não esperava ter mais filhos, pois já tinha três e os novos tempos não permitiam ter muitos filhos, e os outros já estavam grandes. Por um acaso do destino ou um descuido daqueles sem explicação, ela engravidara. Teve muitas dificuldades durante a gravidez, pois já sentia os efeitos da Hipertensão e havia risco de eclampsia. A maior parte da gestação teve de ser deitada numa cama, sem fazer esforços ou ter grandes emoções. Os outros filhos ajudavam bastante e, tinham muito carinho e cuidado com a mãe, além da ansiedade pela chegada de uma criança. O pai também estava ansioso e desejava muito saber se era menino ou menina, apesar de suspeitar que fosse menina, enquanto a mãe tinha quase certeza que seria um menino. Os nomes já estavam pré-definidos: se menina, a chamariam de Mariana, que era a junção de Maria com Ana; se fosse menino, o chamariam de Marcelo, a mãe considerava ser um nome forte e bem na moda naquela época.


Foi então, que no dia 17 de janeiro de 1975, em pleno verão e com temperaturas acima de 30 graus, às 14h e 32 minutos nascia Marcelo, após uma cesariana de alto risco e com muitos cuidados. O menino nascera com 3.400g, 46 centímetros e cheio de dobrinhas. Nesse dia, Marcelo dera seu primeiro grito para a vida chorando tão alto que se ouvia nos corredores do Hospital.

 

Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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