o dorso do rio é o asfalto

Atualizado: 8 de jun. de 2020

COLUNA:

MUSEU DE TUDO

por Theo Alves

 

 

o doutor mandou, minha avó disse quando mamãe perguntou a ela o que estava fazendo. eu que, mesmo criança miúda, prestava sempre atenção ao que os médicos recomendavam que se fizesse comigo, não recordava aquela prescrição ou ainda algo parecido com ela. o doutor mandou, ela repetia, e ninguém ousaria dizer que não.

eu não compreendia como brincar na areia de um rio semimorto, em que raras vezes vi correr alguma água pouca, poderia me salvar da falta de saúde que mantinha. mas minha avó dizia que isso me curaria, que o médico havia receitado, e só me cabia cumprir suas ordens. mais as dela que as do médico.

meus pés pisaram a areia primitiva do dorso quente do rio pela primeira vez e senti que o mundo era novo e todo único diante de mim ainda muito pequeno. sem saber mesmo que cada um daqueles grãos estava ali desde muito antes de mim, de minha mãe e até mesmo de minha avó – que era a ideia mais distante de tempo que eu então fazia – pude compreender que ela e eu partilhávamos do mesmo mundo, do mesmo chão e do mesmo vazio.

o leito de areia ancestral do rio não se parece exatamente com o negrume do asfalto sob meus pés e que me conduzem à casa de minha avó trinta anos depois. a disposição de minha avó também não é a mesma de quando inventava suas prescrições sob o argumento de autoridade do doutor há bastante tempo. os anos vão descascando nossa musculatura, encurvando os ossos que perdem peso sob o peso da vida. não foi diferente com minha avó, mesmo que dona izabel a rezasse sempre contra o mau olhado e as outras doenças do olhar alheio.

as ruas estavam mais longas que das outras vezes em que voltara a currais novos. as esquinas mais angulosas, o sol mais indecente e o vento que nos salvava havia adormecido sob a fumaça dos carros da rua joão pessoa. eu atravessava a rua e ela me cortava em fatias grossas de tempo: os anos de eu menino, o cheiro quente da padaria em que tantas vezes entrara, os ombros que se batiam com os meus ao longo da calçada estreita.

eram tão diferentes a calçada e o leito do rio em que andei como minha avó, como caminhasse de volta ao ventre da terra um dia úmida. a areia macia que um dia esteve sob as chuvas de invernos caudalosos do rio não constituía a matéria inorgânica dos ombros e pernas que me jogavam em direção à rua. não havia o caldeirão que enchia de areia para depois vertê-la sobre minhas pernas, como líquida. era antes um perfume e outro que raspavam ríspidos minhas narinas sensíveis, misturados ao cheiro de diesel queimado da rua.

o dorso do rio era o asfalto que me conduzia à casa de minha avó, que já não haveria de dizer o doutor mandou e outras coisas que inventava. desde que passara a ver médicos com mais frequência, aliás, ela já não lhes criava mais discursos e prescrições. aceitava-as apenas. deitada na rede funda em meio à sala, limitava-se a dormir e a nos divertir de uma maneira triste com seus esquecimentos. não se lembrava mais do rio nem de meu nome, vez ou outra. chamava minha mãe e tias por nomes que não lhes pertenciam e gargalhava por isso.

enquanto eu cruzava as ruas da rodoviária até a casa onde cresci e minha avó definhara, eu podia ouvi-la dizer brinque, meu filho, brinque. e o asfalto negro vertia-se areia de rio e eu via o coreto guarany e o hotel tungstênio afundarem-se sob os grãos de tempo, como eu fazia. meus pés aceleravam passadas que duraram trinta anos para que minha mão abrisse o portão que levava do dorso do rio de minha infância até o caixão em que minha avó já não existia no meio da sala.


 

Theo Alves é escritor e fotógrafo, publicou vários livros de contos e poesias e atualmente é colunista do periódico Potiguar Notícias (RN). Como fotógrafo, dedica-se em especial à fotografia documental e de rua. Também ministra aulas de fotografia digital com aparelhos celulares em projetos de extensão do IFRN, onde é servidor.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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