O erótico na literatura

Atualizado: 5 de jun. de 2020

O erotismo povoa a mente e a imaginação das pessoas desde a essência primitiva do ser humano.

O erotismo povoa a mente e a imaginação das pessoas desde a essência primitiva do ser humano. Nascemos com libido, uma energia vital que condiciona o comportamento humano, e muitas vezes nem sabemos o que fazer ou como lidar com ele. Houve tempos em que era cultuado e incentivado, em outros tempos, polido e proibido, e tempos em que se tornara um pecado mortal. Assim nasce o tabu, o que é proibido ou impróprio de falar, escrever ou praticar.

É importante observar que sempre houve o erotismo, desde tempos remotos até a atualidade, e para sempre, pois é inato e questiona nossa existência solitária ou compartilhada nas interações humanas.

O acesso a esse conhecimento dá-se de muitas formas e um desses meios é a Literatura, que é a arte da escrita. No campo literário há muitos livros que traduzem e descrevem o erótico de várias formas: erotismo como amor, erotismo sensual, erotismo através do sexo, e até o erotismo na pornografia, que é considerado obsceno ou licencioso por muitos.

Portanto, o erotismo está em quase toda a Literatura, por meio velado, aparente ou subjetivo, dependendo da censura ou da capacidade de absorção dos leitores de cada época ou tempo. A narrativa erótica é apresentada por diversos escritores ao longo do tempo, alguns mais sensuais, outros mais sexuais e alguns bastante realistas. Afinal, o assunto erotismo é bastante amplo.

Voltando no tempo, mais precisamente no Século III, uma coletânea de textos indianos tornaram-se virais, As Mil e Uma Noites, narram as histórias do Sultão Charhriar e sua esposa Cheherazade, com forte carga erótica. Na Idade Média, na Itália, Decameron de Boccaccio, usa uma narrativa cômica como base para apresentar uma série de histórias de sexo desenfreado, em que os homens viviam pouco e tinham necessidade de garantir a sobrevivência dos genes, copulando e se reproduzindo desenfreadamente. Um salto no tempo e na censura, no século XVI, temos Sade, com o livro Justine, associando o prazer à dor, trazendo à tona o sadomasoquismo e o masoquismo, tal como o conhecemos hoje. Sade ainda escreveu Os 120 dias de Sodoma, narrando a história de quatro homens que vivem orgias com 46 pessoas em quatro meses. No século XVIII, o livro O sofá, de Crébillon, traz uma narrativa libertina, apresentando as confissões de um sofá, que outrora fora homem e, que testemunhou situações muito sacanas.

No século XIX, A Vênus das Peles, de Sacher Masoch, tem em sua base a descrição do masoquismo, trazendo fantasias sexuais explícitas e detalhadas. No século XX, com a censura mais branda, o erotismo é apresentado por diversos escritores, e temos uma variedade de leituras, como por exemplo, O elogio da madrasta, de Mario Vargas Llosa, a narrativa cria um contraponto entre o amor e inocência, revelando o erotismo da madrasta que se envolve com o enteado. O trópico de câncer, de Henry Miller, publicado em 1934 e proibido até 1961, traz uma linguagem sexual explícita, que muitos consideram uma confissão de suas experiências sexuais. A história e O, de Pauline Réage, apresenta uma ideia de que nada é mais erótico do que a submissão, neste caso, as mulheres estão sempre a disposição dos homens em uma sociedade secreta. Anais Nin, causou polêmica na primeira metade do século XX, ao escrever histórias permeadas de erotismo e ideias feministas, no livro Pequenos pássaros, ela descreve os anseios sexuais, sobretudo de mulheres. Nelson Rodrigues, escritor mestre do Brasil, também se aventurou na Literatura erótica, tanto que, no livro Engraçadinha, narra a sensualidade e porque não dizer, o erotismo transcendental da protagonista que enlouquece sexualmente todos com quem tem contato. João Ubaldo Ribeiro, outro escritor brasileiro que nos ofereceu literatura erótica, escreveu A casa dos Budas ditosos, da série Plenos Pecados, em que a protagonista narra sua própria vida e suas experiências sexuais, sem culpa e com todo o prazer.

As duas primeiras décadas do século XXI eclodiram autores dispostos a escrever sobre erotismo. Na série de livros, 50 tons de cinza, de E.L. James, a submissão e a ascensão sexual da protagonista é descrita, iniciando com a inocência que é transformada em poder, permeado de romantismo. Outra série de livros que tornou-se popular entre os leitores é Crossfire: Toda sua, Profundamente sua, Para sempre sua, Somente sua e Todo seu, da escritora Sylvia Day, apesar das inúmeras descrições eróticas, sexuais e do total prazer que é descrito, trata-se de um romance, com o erotismo voltado ao amor eterno, com o objetivo de enlace e do tão sonhado “felizes para sempre”.

Apesar da censura e do caráter proibido desse assunto na Literatura ou até mesmo entre as pessoas, o erótico permanece eterno e está sempre em alta. Alguns desses livros tornaram-se filmes e com muitos adeptos. Em busca de entretenimento, conhecimento ou da simples noção de não estar sozinho nessa busca. O erótico deve ser debatido, divulgado e apreciado, para que possamos compreender que é inato, e que deve ser enaltecido e nunca subjugado. Resta-nos a vontade de ler ou até mesmo reler alguns desses títulos, e quiçá localizar outros títulos com o mesmo teor erótico, afinal, a leitura é conhecimento e a Literatura é arte.

 
Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

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