Sem marcas

Atualizado: 11 de ago. de 2020

CRÔNICA

Ilustração de © Marcelo Pitel

Caroline ela era magricela, mas tinha uma bunda grande. Ela tinha absoluta certeza de que não agradava os olhares dos meninos da escola. Sabia que seria a última a tocar os lábios de um guri. E realmente o foi. Entre o grupinho de amigas, Caroline foi a mais atrasada de todas. Sua mania era falar sobre música, pois gostava de sons que a grande maioria da escola sequer conhecia. Ela sabia que ao falar sobre bandas poderia se diferenciar, pois pensava que os meninos não a olhavam como uma mulherzinha. Assim, pelo menos, ela se enturmava.

Sua amiga Carine beijou um menino. Caroline ficou feliz pela amiga, e logo imaginou que poderia ser a próxima. A Mônica, sua outra amiga beijou também. E novamente, Caroline foi a primeira a ficar sabendo e ficou igualmente feliz.


Seu tênis de lona verde e cano médio acusava a sua diferença entre a turma. Ninguém usava um tênis de lona verde. Não era moda. Mas ela não tinha dinheiro e acabava aproveitando tudo que suas primas deixavam de lado. As calças jeans, justas, coladas no corpo denunciavam a silhueta de uma mocinha que, ao se formar mulher, teria o quadril largo e cintura fina. As camisetas largas e compridas serviam para esconder as alças do sutiã. Pura vergonha! Mas não poderia deixar de usar o sutiã. Seus seios continuavam a crescer e começava a aparecer o formato arredondado e pontudinho de seus peitos. Acusava que seriam medianos. Mas aquilo não importava porque os meninos não os viam. Pelo menos, era o que Caroline pensava.


As fitas cassete eram a febre do momento. E todas as tardes, após o almoço, Caroline se parava em frente ao toca-fitas de seu pai, sintonizava uma rádio legal, esperava tocar suas músicas preferidas e apertava o botão “REC”. À tardinha, ia para o trabalho. Era repetitivo, mas até que ela gostava, pois trabalhava com pessoas bacanas.


Caroline ainda esperava um beijo. Ficava vendo os guris bonitinhos da escola. À tarde, durante as gravações, imaginava o locutor com a voz bonita que anunciava as músicas que ela gravaria. Tinha uma paixão platônica pelo locutor, sem sequer ter visto seu rosto. O par de tênis verde resistia. Assim como o jeans justo, agora já batido e desbotado. Suas colegas usavam o jeans begg, uma calça com modelagem de quadril largo. As camisetas mudavam de cor, de estampa, mas continuava sendo as camisetas que escondiam a alça do sutiã. Sem marcas. Nenhuma marca. Pura vergonha!


Numa noite de sábado, Caroline, Carine e Mônica haviam combinado de ir a uma festa após o trabalho. Caroline esperançava o primeiro beijo. Mas ela não andava na moda, se considerava esquisitinha e não usava tênis bacana. Caroline achava que nenhum menino a olharia.


Naquela noite, Caroline ousou em vestir uma blusa justa que estava há tempos no armário. Seu decote era profundo. Mostrava seu colo que já era sensual para sua idade. Mas não deixava à mostra os seios esbranquiçados. Não abriu mão do seu jeans, nem mesmo no sábado, ainda que não fosse moda aquele modelo tão justo. A blusa mostrava o colo, mostrava seus ombros e acusava que ali dentro havia um par de peitos. Já na festa, um guri foi se chegando. Papo vai e papo vem, Caroline descobriu que o André gostava das mesmas músicas que ela, gostava da mesma rádio e que, às vezes, também gravava algumas fitas cassetes. Ele era amigo do Rafael, guri que a Carine estava ficando. André também já tinha beijado. Ele era bonitinho, tinha cabelos escuros e vestia um jeans surrado e cortado nas barras que deixava a bainha meio desfiada. André falava coisas bacanas sobre música. Ele também tinha fitas cassetes. Ele era legal. E a blusa de Caroline acusava que ali tinham peitos. Ela pensou que devesse ter vestido uma camiseta. André não parava de olhar. Pura vergonha! E ele a beijou. E a blusa - a de Caroline- marcava seus seios. Ele a beijou de novo. E no abraço apertado, percebendo o arrepio de Caroline, André sentiu que ali havia um par de peitos.

 

Cláudia Kunst, produtora cultural e jornalista. Produz shows, bandas e projetos há 20 anos. É quase uma workaholic e é apaixonada por música. Adora tatuagens, carros antigos e botas empoeiradas e um pouco de solitude.


A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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