Sou um livro de autor premiado

TEXTO LIVRE | EXPERIMENTOS LITERÁRIOS

O meu papel é um Pólen Soft de 80 gramas, devidamente traduzido e revisado com muito rigor e sem nenhuma pressa. Composto com todas as regras que o melhor profissionalismo editorial exige. Foi exatamente assim que fui feito, depois de ter nascido da mão iluminada de um escritor, eu e mais 3000 irmãos gêmeos verdadeiros. Deram-me uma capa, infelizmente não é dura, como aquelas destinadas aos grandes clássicos, mas é condigna e tem uma foto tratada por um excelente designer de capas, linda e perfeitamente atual. Assinado por um autor premiado e com boas críticas, tudo estrategicamente destacado numa cinta de cor elegante. Com um título sugestivo, estou sentado — ou melhor deitado, porque um livro sozinho não consegue sentar, a menos que peguem nele —, como dizia, estou deitado numa mesa central da livraria, ao lado de outros romances, alguns tão novos quanto eu, à espera. Dizem, os mais velhos, que sou um sortudo, que a maior parte deles vai sozinho para as prateleiras de canto, enquanto esperam, coitados, de pé. Mas eu tenho tudo para que me vejam, toquem, cheirem, abram e, de um impulso, me levem.


Percebo passos, acho que alguém está vindo aí, não esperava que fosse tão rápido. Não consigo distinguir se é homem se é mulher, jovem ou mais velho. Disseram-me, em conversa com os outros, que livros como eu costumam ser levados por mulheres maduras. Espero então que quem está se aproximando seja uma mulher. Não vai ficar desapontada com o que tenho para lhe contar: o meu autor é, como já disse, premiado. Mas, para além disso, eu tenho tudo. Intensidade dramática, personagens bem construídas, uma narrativa fluida, ao mesmo tempo poética, bem escrita, original e um fim, esse então, completamente inesperado.


Era uma mulher, mas não me levou, preferiu outro, um com uma flor na capa e corpos nus deitados. Procuro não me desesperar, há de aparecer alguém com gosto mais apurado e requintado. Digo eu!...


Os meus pensamentos começam a ficar confusos, não sei se passou um dia, se passaram 15 dias ou meses. Seja como for, o tempo começa a esgotar-se. Senão aparecer ninguém rapidamente… Nem quero pensar nisso.


Finalmente, pegam em mim. Espere um pouco!... Eu conheço esta pessoa. É o livreiro que me pôs aqui, aquele que de vez em quando vem me ajeitar, colocando-me com a cara para cima, porque me deixam desleixadamente de cara para baixo. Sejamos sinceros, quem é que gosta de estar de traseiro virado para os outros?


Mas, o quê...? Ele não veio para me virar para cima, porque já eu estou assim. Sei qual vai ser o meu destino. Já tinha ouvido rumores, contados com desprezo por aqueles que dizem ser de uma estirpe diferente, os livros de top. Todos achávamos que não passavam de rumores. Agora sei que é verdade, e está acontecendo comigo.


Fui levado numa caixa de papelão, juntamente com muitos outros indesejados da mesma editora, sem respeito, nem cuidados especiais, amontoados, uns em cima dos outros, como se fossemos livros sem direitos e sem qualquer identidade. E agora é o fim, ingloriamente transformado em papel para reciclagem.


Eu tinha tudo, ouviram!?... Sou um livro de autor premiado!

 


Daniel Cunha é publicitário e designer gráfico. Um apaixonado por imagens e cores. E, nas horas vagas, atua como ilustrador e fotógrafo.


A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.

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