Uma história de superação

Atualizado: 27 de jul. de 2021

CONTO

Na festa de aniversário de 25 anos da empresa, Antônio, o proprietário foi convidado a discursar para seus mais de 200 funcionários. Afinal fora ele o idealizador, o empreendedor e o responsável por colocar a empresa entre as principais da cidade. Toninho como era conhecido pelos mais chegados pegou o microfone e principiou seu discurso.

“Muitos de vocês não conhecem minha história e no dia de hoje vou relatar a vocês uma pequena parte de minha origem. Nem sempre fui esse empresário de sucesso, muito pelo contrário. Minha família era do interior, meu pai era órfão, minha mãe era de outro estado e os dois trabalhavam numa fazenda, onde não recebiam salário, apenas compartilhavam um galpão com outros trabalhadores e recebiam uma porção de comida de manhã e ao meio dia, à noite comiam frutas que colhiam das árvores da fazenda. Lembro disso, pois aos 10 anos de idade, perdi meus pais para um surto de Meningite. Sozinho e ainda criança, o dono da fazenda me mandou subir numa carroça que tinha destino a capital. Após alguns dias de viajem e chegando à cidade os carroceiros pediram pra eu descer e esperar até que voltassem. Eles nunca mais voltaram e eu fui viver na rua. Morava debaixo da ponte, entre outras pessoas na mesma situação em que me encontrava, e tentava ganhar uns trocados nas sinaleiras. Poucas vezes consegui me alimentar regularmente, ou tampouco pude frequentar uma escola. Meu destino estava selado e eu viveria de esmolas para sempre. Aos 17 anos e um pouco mais esperto, carregava caixas de verduras, legumes e frutas no Mercado Público da cidade. Não tinha salário, nem emprego formal, ganhava algumas moedas, e nem sempre me chamavam para descarregar os caminhões. Mesmo assim continuava tentando ganhar algum dinheiro para me alimentar ou recebia alguma comida de alguém, o que era raro de acontecer. Quando completei 19 anos, o dono de uma das barracas de frutas do Mercado Público me perguntou se eu gostaria de trabalhar com ele, sem registro em carteira, mas eu receberia um salário módico, além de poder comer frutas a vontade. Lembro que vez ou outra o Seu Armando trazia comida a mais e compartilhava comigo. Além disso, me deixava dormir na barraca durante a noite, num colchão fino que no dia seguinte podia ser dobrado e escondido dos clientes. O Seu Armando exigia trabalho e raramente me deixava sentar para descansar, mas ao mesmo tempo me respeitava e era gentil comigo.

Eu não tinha documentos, nem sabia o sobrenome que tinham meus pais, só o primeiro nome deles eu lembrava: Tião e Maria. E Seu Armando me ajudou a procurar o Cartório para que eu conseguisse emitir documentos e então com 21 anos, consegui fazer a Carteira de Identidade, posteriormente o CPF, a Carteira de Trabalho e o Título de Eleitor. Enfim eu era alguém! E fui fazer o Mobral para aprender a ler e a escrever. A barraca de frutas do Seu Armando foi por muito tempo minha casa, meu trabalho e minha única vida. Quando eu estava prestes há completar 25 anos o Seu Armando teve um infarto fulminante, que eu só soube quando no dia seguinte, um de seus filhos veio falar comigo. Essa simples banca de frutas fez com que Seu Armando conseguisse criar os filhos e dar-lhes estudo, e nenhum deles queria trabalhar na barraca, nunca quiseram. Já tinham um Supermercado pra cuidar e só o Seu Armando fazia questão de manter aquela barraca, que foi onde ele começara a vida. Então fui comunicado que eu ficaria com a banca de frutas como forma de pagamento pelos anos de trabalhado sem registro ou direitos, era o desejo de Seu Armando e ele comunicara a família.

Eu fiquei triste e feliz ao mesmo tempo. Triste por Seu Armando não existir mais e feliz por ter ganhado um meio de sustento, e que seria dono da barraca. Mas minha felicidade durou pouco tempo. Os fiscais da Receita Federal fizeram uma visita à banca de frutas e me comunicaram que eu deveria regularizar o local, com CNPJ e pagar os impostos para manter o negócio funcionando. Não tinha outro jeito, ou fazia o registro ou tinha de fechar a barraca. Para dar conta de pagar tudo e regularizar a agora Banca de Frutas do Toninho, vivi por mais alguns anos na própria banca, dormindo e comendo, e no banheiro público dava um jeito de tomar banho de balde - no verão era bom, mas no inverno cheguei a ficar dias sem tomar banho. Eu economizava o máximo que podia, pois os impostos eram altos e ainda tinha de pagar um Contador para que fizesse a parte burocrática ficar em ordem perante os órgãos de fiscalização.

Só aos 30 anos consegui alugar uma pequena casinha com duas peças e um banheiro. Comprei poucos móveis e usados, só o básico, mas principalmente, uma cama com colchão que era o meu maior sonho no momento. Eu ainda era muito econômico e sabia o valor do dinheiro, ou melhor, dava valor ao dinheiro que ganhava. Esse começo foi bem difícil, eu trabalhava sozinho e por 12 horas a fio, comia em pé quando dava, e vivia humildemente. Aos 35 anos eu consegui comprar um galpão pequeno, e assim, comecei a empresa que hoje comemora 25 anos de existência. Digo a vocês que minha vida sempre foi um enorme desafio, inclusive para sobreviver, mas eu fui persistente. Tive de estudar muito, fazer muita pesquisa até descobrir como fazer conservas ou de como conservar frutas para vender embaladas em vidros. Assim as frutas durariam mais e haveria menos desperdício de comida. Isso era importante para mim e um anseio: como evitar o desperdício de comida. Só quem já passou fome sabe a dor de um estômago vazio. Nesse tempo conheci minha esposa, que era uma ótima cozinheira e me ajudou muito a começar as primeiras produções. Quando as conservas estavam prontas saíamos os dois para vender de porta em porta. Com a ajuda de minha esposa, fomos aumentando a produção, as vendas e precisamos contratar pessoas para nos ajudar. Em 05 anos de trabalho árduo o galpão já havia dobrado de tamanho e já tínhamos 10 funcionários auxiliando na produção.

Muitos de vocês desconhecem a minha história, de onde eu vim ou como cheguei até aqui. E nem foi me ater aos detalhes que são muitos, confesso e daria pra escrever um livro bem grosso. Foi um caminho bastante pesado e que exigiu muito de mim, e de minha própria vontade, além da humildade de reconhecer que o trabalho era minha única forma de sobreviver no mundo. E trabalhei muito mesmo e ainda trabalho. Jamais me esquecerei de Seu Armando que foi a primeira pessoa a me dar uma oportunidade, e eu lhe fui fiel como um cão. A barraca de frutas foi onde aprendi a ser alguém e me proporcionou olhar para o futuro com esperança. Hoje só tenho a agradecer a todos os funcionários por terem sido fieis ao seu trabalho, por acreditarem e por dedicarem grande parte de suas vidas a essa empresa. Sou muito grato a vocês e à vida, que me fez aprender a valorizar que através de pequenos gestos, ou primeiros passos podemos conquistar muito mais do que sonhamos ou desejamos.”

Nesse momento todos os funcionários em pé aplaudiram seu patrão. Alguns choravam, outros estavam estarrecidos com esse depoimento e alguns mal conseguiam acreditar na história que lhes estava sendo contada.

Toninho agradeceu e pediu silêncio por mais um momento. Tinha ainda algo muito importante para dizer.

“Eu agradeço a todos de coração. Através de vocês que essa empresa chegou onde chegou, com o trabalho de cada um, com o empenho de cada um e com o esforço de cada um de vocês. E por isso mesmo, que a partir de hoje essa empresa será de vocês. Transformei-a numa Cooperativa e cada um de vocês será dono de uma parte. A partir de hoje vocês que tomarão conta, que definirão o trabalho e receberão os lucros. Mas lembrem-se, o bônus está sendo ofertado a cada um e o ônus será que trabalhem ainda mais, que busquem ainda mais e que façam essa empresa gerar muitas alegrias para vocês.”

Por um momento a plateia de funcionários esteve incrédula e diante da confirmação do Diretor Financeiro da empresa, todos começaram a gritar de felicidades.

Diante da alegria dos funcionários, Toninho retirou-se através da porta lateral e encontrou sua esposa do lado de fora. Olhou-a com um sorriso e disse-lhe:

‒ Está feito, a empresa é deles. A nossa nova empresa começa agora: vamos aproveitar a vida!

 

Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.







Confira este conto na nossa publicação online Caderno Escape #02

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