Vínculo sarcástico

Atualizado: 27 de jul. de 2021

CONTO

por Janaína Mello

Era final de junho quando recebi, escrita com letras grandes, uma carta, que após reticentes saudações, pedia por minha presença. Tratava-se de um antigo amigo, que não via há um bom tempo. Não estranhei a forma usada para comunicar-se, Rafael tinha suas peculiaridades. Cheguei a sua casa na data combinada, e toquei a campainha, que estava coberta pela vegetação. Isso estranhei, pois meu amigo sempre fora muito cuidadoso. Ao abrir-se a porta, não me impressionei menos. A mulher que me atendeu não moveu um músculo do rosto, enquanto disse:

— Pois não...

O tailer preto, de ombreiras e gola alta que ela vestia, denunciava sua magreza e brancura extremos. Seus cabelos, muito bem alinhados no alto da cabeça, deixavam a mostra um rosto congelado, e cheio de rugas. Por um momento, me senti em um dos mistérios de Poe. Estranhezas a parte, entrei. Entreparei a porta, observando a cabeleira loura de um homem sentado na poltrona. Não preciso descrever minha surpresa, quando vi que se tratava de Rafael. Salvo falha da lógica, deveria estar desfrutando de longas e prazerosas horas, ao lado da companheira escolhida, e um ou dois cachorros, para suprir a falta dos filhos já casados. No entanto, a atmosfera que deslumbrei fugia radicalmente disso.

Meu amigo me recebeu com a simpatia de sempre. Talvez com um pouco menos de... polidez. — Oh, meu amigo, os anos te fizeram bem! —Estou bem. —Sente-se, deve estar cansado. — Você está um tanto mudado! — Sim, enfim cansei. Quem precisa manter as convenções, depois da metade da vida? Quisera eu telas mantido aos meus quinze. Agora não. Às vezes precisamos de um pouco mais de... intensidade — Ele me olhou, como se lhe ocorresse algo — Você deveria tentar. Encarei-o, atônito. Indiferente, ele prosseguiu: — Venha! Ana está acamada. Meio permanente, sabe? Essas coisas... ainda bem que temos a Joana. Não sei o que seria dessa casa sem ela. Rafael conduzia-me ao quarto, usando um tênis adolescente ridiculamente discrepante com sua idade. Estaria ele sofrendo da síndrome de Peter Pan? No quarto, muitos livros obscuros, com temáticas ocultistas, cobriam as estantes. Ana permaneceu estendida sobre a cama e assim me lançou um olhar muito breve. "Ela está abalada, mas é a única que preserva a lucidez nesta casa", pensei. Desde que eu entrara ali, Ana era o único lampejo de lucidez que eu encontrara, e a isso eu queria vincular-me, para ao menos conseguir passar a noite em lugar tão psicodélico. Ademais, estava preocupado com Ana, enferma e em meio aquela loucura.

— O tempo te fez bem, amiga.

Ela levantou olhos súplices, devagar.

— Obrigada!

— Deus lhe proporcione ainda muitos anos.

— Eu sou uma prisioneira deles – ela disse, agarrando meu braço. – Não se preocupe comigo.

Fiquei aturdido. Seria aquele, um explícito pedido de ajuda de Ana?

— Vou lhe mostrar seu quarto. Você está com cara de cansado.

Eu agora estava envolvido na história daquela casa, fosse ela qual fosse. Eu agora fazia parte, e só fugiria se fosse covarde. Chafurdei entre os livros, para ver se haveria algum título capaz de suavizar minha noite. Eu, que era inclinado á literatura obscura, agora procurava como a um tesouro, algo com a banalidade de um guia turístico.

Acordei tão agitado quanto quando dormi, meia hora antes, e a insônia invadiu, impertinente e imperiosa.

— Ainda pensa as mesmas coisas, Roger?

Tomei um susto, e enxerguei Rafael no corredor, a cabeça velada pela sombra da noite, com o livro que eu escolhera para ler antes de dormir em mãos. Eu teria deixado a porta aberta? Não lembrava disso.

— Você me assustou, Rafael.

— O homem e o Sagrado. O homem, o Sagrado — Ele balbuciou, folheando o volume de capa dura, cujo gênero poderia ser definido como um auto-ajuda sofisticado.

— Está tudo bem, Rafael? Seu rosto apareceu à luz do corredor.

— Você se informa a respeito desses assuntos. Me diga, você já pensou em todo o brilho que o Homem carrega? Toda a sua bondade reluz em seu corpo. Temos que considerar a existência do fosco, Roger. Há algo mais fugidio do que a justiça? Há algo mais fácil de aparecer e desaparecer? Não temo o fosco. O brilho, um pouco, o fosco não, mas não ignoro sua existência.

O desjejum do dia seguinte, por um momento, quase me fez achar que eu visitava uma residência normal. Apesar de toda estranheza, eu era bem tratado. Mas logo me veio a lembrança de Ana, pedindo socorro silenciosamente. E essa tal de Joana? Eu nunca vira criatura mais esquisita.

Precisava olhar para algo que me colocasse na história de forma concreta. A casa era grande, e Rafael e Joana, muito presentes. Mas eu precisava aventurar-me. Passei pelos corredores, dei uma olhadela rápida em cada quarto. Tudo parecia estranhamente normal. Parecia uma casa fria, ausente de história, apesar de sinistra e cheia de objetos que eu não sabia identificar. A porta do sótan estava entreaberta. O sótan, será que eu deveria?

Adentrei com relativo esforço, o lugar, que estava um tanto empoeirado. Fiquei estupefato ao deixar a luz do dia adentrar o ambiente. Havia objetos religiosos de todos os tipos. Ideias misturadas: livros satânicos, terços, velas, uma adaga. Em um canto, uma espécie de forca. Como se fosse, não sei bem o que digo, mas era como uma forca.

— Você perseguiu o fosco, Roger. Como Rafael subira sem eu perceber? Estaria ele já ali antes de mim?

— Eu só vim procurar algo para dar um jeito naquela grama... se você não se importar.

Quase corri para a porta... trancada! Vi-me encurralado. Rafael se aproximava, e eu ia tentando manter distância. Estaria ele armado? Eu já não sabia nada sobre aquela casa. A única coisa em que eu pensava, era em sair dali, nem que fosse pulando a janela. Foi muito, muito rápido. Senti a corda grossa sob meus pés, um soco violento em meu corpo, e eu estava de cabeça para baixo. Fosse aquele objeto uma forca, no mínimo, não estaria sendo usada da forma convencional.

Minha vida agora estava nas mãos de um louco. É certo que também estava nas de um antigo amigo. Naquela situação, entretanto, me soava mais clara a primeira sugestão. Eu já me sentia extremamente desconfortável por estar de cabeça para baixo. Rafael pegou a adaga. Eu agora tinha certeza, minha vida acabara.

— Você já acertou algum ser vivo na jugular? Não respondi, e nem conseguiria. Ele seguiu com uma explicação torturadora. — Não é para emotivos... o processo é mais demorado do que a compaixão humana possa tolerar.

Em minha experiência de mais ínfima esperança, vi um milagre acontecer. Joana apontava a arma para Rafael com firmeza. A postura sisuda, com as pernas entreabertas, não combinava com a saia lápis preta e o coque clássico no alto da cabeça. Ela parecia...

— Me entregue a arma!

Rafael olhou-me com uma expressão que continha ódio e desprezo, mas não ousou se mover. Joana repetiu:

— Entregue a arma! Com uma das mãos erguida, ele virou-se cuidadosamente, e passou a adaga às mãos de Joana.

— Joana, o que houve?

— Você está preso em flagrante delito — Joana pronunciou, apresentando o distintivo policial. Para minha alegria, após algema-lo, ela não demorou mais de três minutos para soltar-me.

— Obrigado — Eu pronunciei, um tanto envergonhado de mim mesmo. Ouviu-se um barulho pelo corredor, e Joana saiu arrastando Rafael com muita rapidez e violência. Adentrou o quarto do casal, que estava vazio. Parecendo formular uma pensamento em menos de um segundo, ela o algemou a cama e saiu, trancando o quarto. Ao embarcarmos em seu carro, ela acionou a polícia com uma ligação, antes que desse a partida.

— Ela deve ter se assustado... — falei, na verdade porque não sabia o que convinha perguntar.

— Roger — fiquei surpreso quando ela pronunciou meu nome de forma tão pessoal. — Nós os temos investigado a algum tempo.

— Imagino...

— Ana é a mentora dele — eu começava a compreender. — Esse casal enlouqueceu depois de perder um filho que possuía uma doença rara, que o envelhecia precocemente.

— Eram meus amigos de longa data.

— Sinto muito. Após perderem o filho, eles passaram a ficar obcecados com questões referentes a rejuvenescimento, juventude, velhice. Então, passaram a frequentar religiões diversas, que ensinavam a respeito de tal assunto. Não conseguimos apurar por quantas eles se aventuraram. No entanto sabemos que o suficiente para absorverem a ideia do sacrifício humano para através do sangue oferecido, alimentar a própria vida e juventude.

Não pude evitar o ato quase inconsciente de persignar-me, ao que Joana riu... bastante.

— Nossa!

— Ana não queria fazer o trabalho sujo. Então, ela o persuadia através de uma falsa fraqueza que dizia sentir. E creia, Roger, ela o ensinou a sacrificar.

Visualizamos Ana caminhando na calçada, já com dificuldades. Ela fugira por longo trecho. Ao nos ver, ela inesperadamente deitou-se. Joana abandonou o carro, e foi em sua direção.

— Eu lutei muito tempo contra ela — Ana balbuciava palavras difíceis de compreender. — Eu resisti por muito tempo, mas agora já era, ela ganhou.

— Vamos — Joana a conduziu para o carro.

Eu me perguntava quanto tempo eu precisaria para digerir aquela história. Quando o mal se aproxima, uma luz nos alerta às nossas prioridades. Em frente à casa, haviam duas viaturas estacionadas. Joana passou Ana às mãos de um policial, e entrou novamente na casa, e eu também. Enquanto os policiais olhavam a casa e seus objetos, Rafael estava deitado na cama, tão letárgico que parecia morto. Tinha sobre a barriga, um sinistro livro de capa dura. Enquanto o pegavam, ele apenas pronunciava:

— Eu agora só posso esperar; só posso esperar...

Dessa experiência, ponderei que a dor é o verdadeiro mal. Há o que chamam de trevas, mas a dor sim o é. E o que era trevas, na verdade, era o gosto pelo controverso. O que era trevas era, na verdade, ausência de medo!

 


Janaína de Mello (Montenegro - RS) é escritora, contista e autora do livro "O Outro Lado".



A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.



Confira este conto na nossa publicação online Caderno Escape #03

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