A menina do viaduto

Atualizado: 27 de jul. de 2021

CONTO

Uma menina aparentando pouco menos de sete anos de idade vende balas de goma na sinaleira da avenida mais movimentada do centro da cidade. Situação cotidiana para os inúmeros motoristas que transitam pelas ruas. A menina não está só, precisa dividir o espaço com outras crianças mais novas ou mais velhas que também vendem balas, ou outros tipos de doces, flores e tem aquelas que se oferecem para lavar os parabrisas dos carros ou simplesmente, pedem algo para comer ou uma moedinha qualquer para sobreviverem. Existem códigos e normas nesse ambiente e todos devem seguir. Em dias de chuva esperam passar debaixo do viaduto mais próximo ou permanecem na chuva ensopados. A nossa menina tem uma protetora, sua própria mãe, que a deixa no sinal todos os dias por volta das 13h e retorna por volta das 17h para levá-la embora.


As duas são sozinhas no mundo. Moram distante do centro da cidade num casebre de uma peça só, com uma privada a um canto do cômodo. O casebre é constituído de sobras de madeiras, papelão, folhas plásticas e algumas poucas telhas, mesmo assim, às vezes chove dentro. Um colchão surrado em cima de dois estrados se transforma na cama, onde ambas dormem. Um fogãozinho de duas bocas, uma caixa pequena de isopor faz a vez de geladeira, e as poucas roupas que dispunham conservam em caixas de papelão. Nada mais! A menina só sabe o que é televisão ou desenho animado, porque, de vez em quando, visita um casebre próximo com um pouco mais de conforto ou quando vislumbra uma vitrine de loja. Tem uma boneca de pano que dorme abraçada todas as noites, pois sua mãe sai para trabalhar. Nunca entendeu muito bem em que a mãe trabalhava, saia tarde da noite, vestia sua melhor roupa e punha batom vermelho nos lábios. A menina admirava e aguardava na cama o beijo de boa noite. Dormia sozinha a maioria da vezes, raramente a mãe passava a noite com ela.


A mãe chegava pela manhã e deitava-se ao lado da menina para dormir após uma noite de trabalho. A menina percebia que a mãe já não tinha o batom nos lábios e muitas vezes, descabelada ou desarrumada lhe abraçava na cama. A menina deixa-se abraçar e mesmo sem sono, permanecia ao lado da mãe, sentindo seu cheiro, seu calor e a calma que aquele abraço a fazia sentir. Ou quando não conseguia mais ficar na cama, ficava ao lado sentada e visualizando a mãe dormir ou brincando com sua boneca de pano. Quando a mãe acordava cozinhava um ovo e comiam com pão de forma, algumas vezes acompanhava um café preto desses solúveis. Raramente essa rotina era quebrada, salvo raras exceções que a menina nem lembrava. Após esse café, que era também o almoço, partiam para o centro, de ônibus ou a pé. Quando iam caminhando a mãe comprava as balas de gomas num atacado no meio do caminho. Algumas vezes ganhava um daqueles pirulitos redondos e coloridos que mais gostava e saboreava devagarinho até a chegada ao centro. Ali sua mãe lhe dava um beijo e dizia-lhe que viria mais tarde busca-la.


A menina nunca soube o que a mãe fazia naquelas horas e, também nunca pensou em perguntar. As outras crianças a recebiam com sorrisos de crianças e com a responsabilidade do trabalho que teriam pela frente. A turminha com cinco crianças cuidavam umas das outras e se protegiam de outros. A menina era a mais nova e a menina mais velha devia ter uns treze anos. Ao mesmo tempo em que vendiam seus produtos, também brincavam, sorriam e corriam. Algumas pessoas e até alguns comerciantes ajudavam de vez em quando, oferecendo água, alguma comida e até banheiro em algumas ocasiões.


Todos os dias eram a mesma coisa inclusive em feriados e em finais de semana. A menina nunca reclamara de nada, nunca questionara nada e era um doce de menina. Mal tinha noção das coisas do mundo ou das coisas humanas. Sua formação ainda estava em construção, as perguntas ainda não tinham sentido e as respostas ainda não importavam. Sabia menos ainda o que significava futuro ou que a vida poderia ser diferente um dia.


Até que um dia, a meteorologia já dizia que seria o dia mais frio do ano, e dos últimos anos. A mãe não retornou para buscar a menina no fim da tarde. Num beco do cais do porto próximo ao centro uma mãe jazia esticada no chão frio com várias facadas no abdome. Algumas de suas colegas de profissão choravam e estavam chocadas, e poucos carregadores do porto também estavam abismados com a cena de morte e sangue.


Na sinaleira a menina esperava pela mãe e o dia foi escurecendo até virar noite. Encaminhou-se para baixo do viaduto numa tentativa de proteger-se do vento frio e da escuridão. Nesse viaduto ela sentou-se num canto escuro e começou a chorar baixinho, raramente chorava, mas sentiu as lágrimas escorrerem do rosto. O frio ficara intenso conforme a noite ia avançando e a menina imaginou o aconchego quente do abraço da mãe e o amor suave do seu beijo em seu pequeno rosto. Também lembrou-se de sua cama e do cobertor marrom em que enroscava-se para dormir. A menina foi contraindo seu pequeno corpinho a fim de afastar a sensação de frio. Fechava os olhos e sonhava com o ovo cozido que sua mãe lhe preparava e o pedaço de pão que sua mãe lhe estendia. Voltava a abrir os olhos ao sentir a dor lancinante nos dedinhos dos pés e das mãos, tentou tocá-los e gelados mal os sentia. A fome e o frio avançavam e ela tremia baixinho, seus pequeninos lábios começavam a ficar roxos. Não se sabe exatamente a hora, em que fechou os pequenos olhinhos e nunca mais os abriu novamente.


O dia mais frio do ano deixara sua marca no mundo, na mísera vida e no último suspiro de mãe e filha. Nunca mais se encontraram em vida, tampouco houve qualquer relação entre a mulher encontrada no porto e a menina do viaduto pelas autoridades que as localizaram sem respiração. Sobre a mulher pouco se importaram devido ao seu meio de sobrevivência, mas a menina encontrada no viaduto saiu nos jornais e algumas pessoas ficaram tocadas, e até tristes. Ambas deixaram de ser sozinhas no mundo e foram viver juntas entre as estrelas.

 

Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

A revisão ortográfica deste texto é de total responsabilidade do seu autor ou assinante da postagem publicada. A revista Escape só responde pela revisão ortográfica das matérias, editoriais e notícias assinadas por ela.







Confira este conto na nossa publicação online Caderno Escape #02

Quando o Sol impera e outros contos

de Juliane Sperotto

37 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo