Caroline

Atualizado: 27 de jul. de 2021

A primeira vez em que vi Caroline, insondável prazer e espanto não poderia eu supor, que aquele dia de sol trivial me trouxesse.



O vestidinho cor creme era suntuoso, porém vestia-lhe de forma despretensiosa. O tecido grosso adornava-lhe os ombrinhos, que ainda não tinham uma década.

Assistida pela percepção de toda a previsibilidade do que ocorria em meu consultório, passei a inquiri-la. Não sem medo de que a névoa encantadoramente mística que a cercava se dissipasse, e tendo quase certeza de tal ocorrência.

O verbo porém, sem prurido jorrou, confirmando e radicando minhas impressões mais românticas.

— Olá, Caroline, é um prazer conhece-la. Como você está?

Ela estendeu-me a mão, rígida, e a minha foi encontrá-la, sem discernir muito bem se o fazia a uma adulta ou criança.

— Estou bem, senhora Juliana.

Ela sentou-se inteligentemente na beirada da cadeira, acomodando o vestido, e mantendo os pés o mais próximo do chão que podia.

— Como você se sente hoje? Foi á escola? O que acha de seus colegas?

A menina me respondia com enfado. Seus olhos azeviche corriam pelo consultório, pareciam contar as persianas... E eu em minha afetação, não sabia mais como outorgar praticidade e credibilidade a meu quase monólogo.

Enfim, ela me interrompeu com um gesto de mão, e eu parei, interessada em ouvi-la.

— A senhora pode pedir para que eu faça um desenho. O que acha?

Tal sugestão debilitou toda a linha analítica que eu adotara até então, e me desconcertou acentuadamente. Como, diante da inconsistência das respostas obtidas até ali, não me ocorrera tal método... antes que à ela?

Caroline indubitavelmente não se tratava de uma criança comum. Minhas habilidades de forma alguma permaneceriam veladas diante dela, e nem minha ignorância.

A ideia se fazia impositiva, e estendi-lhe ofício branco, e um estojo, com cores e tudo o que ela precisaria.

— Gostaria de ter sua opinião, senhora Juliana... — ela começou, coreografando a cabeça sobre o papel. E cada palavra que ela dizia me arrebatava totalmente o interesse.

— Pois não...

— Certa vez, moramos em uma casa grande e antiga — ela falava, sem tirar os olhos do papel.— Haviam muitos aposentos. Era uma casa alta. Eu me sentia, de alguma forma, distante dos humanos lá dentro. Á tardinha, eu gostava de observar a rua de uma das sacadas. O quintal era de uma imensidão verde, e eu até tinha a sensação de ter um jardim encantado, onde o espaço vinha servir-me. Havia um quarto, que ocupava todo o terceiro andar. Este não possuía janelas, mas por todos os lados haviam vitrais, que transmutavam a luz solar em raios multicoloridos. Por conta disso, o quarto nunca estava escuro, e também nunca estava iluminado. Uma corrente de vento sacudia as enormes cortinas e as agitava constantemente. Sabe, o vento podia não estar na rua, mas constantemente estava lá, atrás das cortinas daquele imenso e alto quarto. Algo exercia um poder alheio sobre mim, quando eu subia para ali. E ali desenvolvi precocemente muitas de minhas habilidades, inclusive verbais, embora minha mãe tenha sido uma exímia e rija instrutora...

— Você fala como uma adulta... — afirmei, espantada.

— Isso não deveria ser motivo de surpresa para ninguém. A inteligência é tendência humana, e a memória, se soubéssemos de sua capacidade... — ela disse, depois continuou — Havia uma presença naquele quarto, e ás vezes chegava a crer que ela ali residia única e exclusivamente com intenção de convencer-me por bem, que passasse horas em meditações, impossíveis de se transmitir a outro. Essa presença em grande parte me formou, e acredito também que a meus pais. Era palpável e convincente, de forma que eu sentia-me sempre recompensada, de todas as tarefas em que o uso da imaginação era vetado, das brincadeiras extenuantemente triviais que eu encontrava na escola...

Pela primeira vez ela tirou os olhos do papel, e os dirigiu a mim, de uma profundidade que só aquele negro poderia possuir. E continuou, estendendo-me o papel desenhado:

— Você acredita que tal coisa ocorreu apenas em minha imaginação?

— Veja, linda. Nossa imaginação é despertada por nossos desejos e temores mais profundos. Você acha que havia algo nessa casa que a influenciava de forma positiva...

Peguei o desenho facilmente dedutível, apesar de nitidamente não ter sido traçado por mãos muito eficientes. Ela usara apenas o lápis preto! Que peculiar! Havia uma figura cadavérica velando o sono de alguém que parecia ser uma criança. A imagem apesar de simples era tão impactante, que me fez esquecer o que eu dizia.

— O que você desenhou, Caroline? — perguntei.

— Um anônimo.

— Ah! E o que isso significa?

— Alguém que participa da vida das pessoas, sem que estas saibam, ou o vejam. Alguém que está acostumado a viver escondido, sem ser percebido. Uma presença...

Concluí que aquela menina já estava me manipulando e impressionando além dos limites, e encaminhei a sessão para o seu final. Ela não mostrou-se surpresa nem descontente, mas ficou quietinha enquanto eu anotava seus dados, e antes de sair me disse:

— Doutora Juliana, se me visitásseis, não tenho dúvidas de que ficarias mais inteirada de meu estilo de vida e do que me norteia.

Ela fala como um adulto; ela olha como um adulto! Ela ainda disse:

— Só não apareças à noite, pois talvez não consigamos recebe-la da melhor forma.

Apenas a despedi, sem considerar em nenhum nível, sua sugestão. Porém, não podia esquecer de modo algum, aquela persona tão peculiar. Nos dias que se seguiram foi igual. Algo ali me despertara severamente o interesse, e isso se acentuava quase que linearmente.

Naquela noite eu estava só, e tinha isso por privilégio. Minha alma agradecia por estar desconectada do mundo externo. Após a terceira taça de vinho, porém, o mesmo se intrometia a expiar a todo evento sensorial que destoasse de nossos padrões perceptivos.

O vinho, entretanto, ou através de tal, me fizera em tal noite considerar o que está vetado, nos banquetes de cardápio pré-estabelecido. Os quais garante a seus participantes, vida curta porém previsível. Eu precisava de vida longa, e pensava nas sutilezas de Caroline. Suas ponderações de sabedoria precoce interceptaram-me violentamente, tomaram conta de minha embriaguez, do aposento todo em que me espalhara. Tinha tomado conta também do quarto. Enfim, entreguei-me profundamente a algo que se faz certo em meio a erros. E eu sabia que não era perfeito; e eu sabia que estava certa.

A lua estava indiscreta, prateada e enorme. Metade dela pendia, com beleza obscura, da vidraça da janela. De uma sacada insensível e alheia a uma cidade ainda frenética, apesar de ser altas horas, adornada pelo véu escuro da noite densa, cravejada por todas as luzes antiletárgicas, que procuram nortear aqueles que insistem em locomover-se em hora não usual, ao luzeiro maior da noite, dirigi afirmações em idioma particular.

Aquela noite, assim como o que há de mais sagrado, não teve fim, e pareceu-me não começar. Apenas amanheci.

O quanto eu acreditava na presença que a movera? O quanto sua imponência intelectual, e suas feições etéreas e pálidas poderiam sugerir que fosse ela nativa apenas da Terra? Como disse, o vinho me pusera de largo aos mais doutrinários conceitos acadêmicos. Ademais, eu cansara de andar por um caminho todo iluminado, em que eu podia ver até ao final dele, e não havia nada de interessante. Caroline parecia vaguear por noite escura, e eu cortejava sua coragem, embora buscasse fugir de sua adorável anomalia. “Não apareças á noite”, ela dissera. A lembrança me assaltou efusivamente. Seria um convite implícito? Teria intenção efetiva de repelir-me á ideia de visitá-la, ou através de simples psicologia reversa, cumpria o intento de impelir-me, cônscia da elementar regra natural que nos faz desejar impulsivamente pelo que nos é ilícito?

A recorrência de sua observação porém, imperava e abduzia-me na resolução em fazer-me testemunha das insólitas ocorrências a mim descritas. Atraída pelo verbo vivaz do espectro que me falava, logo estava a explorar as ruas escuras. Trafeguei algumas quadras, onde deixei o carro para seguir a pé. Se houvesse nisso algum risco, não me persuadiu mais do que o de ser abordada pela polícia, dirigindo não propriamente sóbria. Com efeito, eu sentia medo de pouca coisa, e escolhi as ruas mais desertas. Mesmo por tais caminhos, a cidade apelava e procurava dissuadir-me. Entretanto, eu sentia a necessidade de permanecer em um estado meditativo, do qual frequentemente informações externas com eficácia me fariam emergir. Tais questões me pareciam tão inverossímeis, que dessa forma eu tinha impressão de conseguir advogar por minhas deduções a partir de minha fonte lógica.

Nesse espírito fiz todo o percurso, e neste mesmo, cheguei até o endereço de Caroline, relacionado em seu prontuário. De fato, a estética da casa impunha mistério, de forma um pouco menos que caricata. Seu tamanho, e o aspecto peculiar de sua cobertura, me fizeram praticamente concluir que Caroline contou por passado, o que pertencia ao presente.

Bem municiada por um parecer clínico, que expiaria qualquer suspeita de insanidade ou afetação, adentrei até a porta da frente. Mas, poderia eu justificar-me perante mim mesma? Teriam meus sentidos sido manipulados pelo ardil de uma menina, uma criança?

Toquei a campainha. Galhos secos faziam sombra á parede, balançados violentamente pelo vento. “O vento prognosticador...”, pensei. Segundos depois, percebi que inacreditavelmente a porta estava entreaberta. Ousei entrar na sala, que estava totalmente escura.

O que passo a narrar agora, não tenciona, nem de longe, lograr algum crédito por parte de quem tome conhecimento. E como pretenderia? Eu mesma jamais aventuraria meu pensamento à aparência de tamanha falácia. Eu mesma, em minha atividade diária como psicóloga, rodeada por tanto ofício e ensinamentos formais, não recorreria senão á estes, para diagnosticar aquele que me chegasse com tal relato. Por isso é que exponho tais fatos amparada por pseudônimos, e alguns outros recursos, que colocam a parte o que não é fundamental.

Preciso viver negando o que viram meus olhos, de outro modo sei que comprometeria minha reputação.

Ao adentrar, ouvi como que uma espécie de canto litúrgico, só que em uma língua totalmente estranha a qualquer idioma já acolhido no mundo. Ora três vozes o recitavam, ora duas. Fui atraída irremediavelmente á rastrear o som.

Tinha a nítida impressão de ser minha presença conhecida, e até monitorada. Á essa altura, minha razão reaparecia a lembrar-me de perigos mais palpáveis.

Não digo toda a estética, pois seria desleal, mas toda a casa, me transportava para dois séculos atrás. Toda ela parecia estar em um estilo vivido de forma empírica. Os tapetes pesados, que cobriam quase todo o soalho, móveis bem desenhados, com beleza particular... Sempre achei uma pena que nosso padrão estético tenha passado a se manifestar de forma tão simplista. E sempre achei que isso seria o reflexo fiel de nosso culto desmedido às ciências exatas e da cauterização de nossa sensibilidade, causada pelos nossos muitos trabalhos e sobrecarga.

Cheguei até a porta, que como por uma provação irônica, estava fechada. E digo, antes de julgamento, que cem dentre cem abririam. Eu abri... consciente de minha inconsequência. A história que eu desvendava, até onde eu vira, poderia ter inúmeros caráteres que a definiriam, e eu presumia que mais da metade deles me seria nocivo.

Empurrei a porta sem anúncio algum, numa espécie de astúcia e irreverência, que vinham não sei bem de onde. O que vi ninguém me convenceria se o contasse. Caroline estava de joelhos, com os olhos vendados. Ouvia-se em tom quase perturbador, a voz de seus pais a entoarem, a sua volta, aquela estranha composição. Depois a de Caroline... mas... posso afirmar, sim e com toda a firmeza, a voz era ouvida, mas seus lábios não se moviam. Definitivamente, não era ela quem cantava! Achas este o mais estranho dos episódios? Porém, agora que tua lógica racional já te fez menear a cabeça e expelir essa ideia estranha como se fosse uma bactéria nociva, agora te relato a parte mais sombria.

Como o brilho que antecede o ocaso, que logo nos escapa e se torna luz opaca, assim eu vi que todo objeto físico que a rodeava estava suspenso. Mesa, cadeira, candelabro... tudo orbitava, literalmente, dominados por uma força oculta. Não pude conter um suspiro, que involuntária e discretamente ecoou na sala. E tudo desmoronou, perdeu o encantamento que o mantinha no alto. Tudo foi por terra, de onde a sã teoria einsteiniana declarou que jamais sairiam.

A voz anônima parou de cantar. E Caroline (tão delicada!) caiu como morta, como se lhe tivessem arrancado subitamente o “sopro”. Não obstante eu nem mesmo acreditar no que vira, inevitavelmente deduzi que Caroline era vítima de loucos, e corri para acudi-la.

— Doutora! Estou feliz em vê-la, mas não sei se posso dizer que chegaste da forma mais adequada.

Apesar do pai de Caroline tratar-me como se minha presença fosse inesperada e inconveniente, sua expressão não convencia-me disso, e fazia-me ter a impressão de que tudo havia sido previsto e premeditado. Como eu passasse a examinar a menina, ignorando-o, a mãe por sua vez disse:

— Ela nunca esteve tão bem. Já passa da hora de nos recolhermos, ficamos felizes por sua visita.

Eu ia responder algo, mas com a mesma precipitação com que Caroline desmaiou, ela voltou a si. Seus olhos abriram-se de súbito, assustando-me até.

— Você está bem?

Ela livrou-se de meus braços, e falou calmamente:

— Senhora Juliana, sempre entre aqui com cautela... — levou o indicador aos lábios, reivindicando silêncio, depois concluiu — Não queremos afastar a presença.

Um sarcasmo frio tomou conta de suas feições, e eu fui deixando aquele lugar, com uma sensação ameaçadora de que não teria tempo de chegar à rua antes que visse mais uma ocorrência insólita. Assim, como que querendo acordar de um pesadelo, saí de lá na velocidade que minhas pernas permitiram. Antes de cruzar a porta, tive a impressão de ouvi-la rindo, mas segui sem voltar-me para ver.

Teriam meus sentidos sido assim manipulados? Ou poderia eu lançar lhes á confiança do que meus olhos não negam terem visto? Embora eu estivesse razoavelmente tendenciosa para um dos lados, digo que não ousei seguir em minha investigação. Mas arquivei-a como meu íntimo segredo. Porém, poderia eu fazê-lo perante mim mesma?

Encaminhei Caroline a outro profissional, mas continuei a monitora-la de longe, com uma preocupação maternal, mas também curiosidade. Por esse viés, absolutamente nada de anormal chegava ao meu conhecimento. Teria eu que aproximar-me dela uma vez mais, para reencontrar o que a circundava?

Certo é que doravante carrego uma mente mais investigativa, uma fronte mais reticente, e a austeridade de uma alma que transcendeu aos limites inflexíveis de nossa formação racional.


 


Janaína de Mello (Montenegro - RS) é escritora, contista e autora do livro "O Outro Lado".




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Confira este conto na nossa publicação online Caderno Escape #03

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de Janaína Mello

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