Danos e merecimentos

Atualizado: 8 de jun. de 2020


Marirose estava em busca de trabalho. Procurava em todos os lugares e entregava o máximo de currículos que podia. Mesmo com pouco dinheiro, corria atrás. Preocupa-se muito, pois dependia de um trabalho para sustentar a filha de dois anos, pagar o aluguel do quarto e sala em que moravam e para poderem comer. No último trabalho de serviços gerais ficara pouco tempo, pois engravidara e fora colocada na rua pelo dono do escritório em que trabalhava. O pai de sua filha nem soubera de sua gestação, sumira no mundo após dois encontros com Marirose. Por isso teve de assumir sozinha a gravidez, a filha e o sustento das duas. Tinha em sua mente a ideia fixa de ter uma vida digna, de um dia, conseguir comprar um imóvel, ter uma vida mais tranquila e proporcionar à filha o que nunca tivera. Nesses dois anos após o nascimento da filha, economizava o que podia, usava fraldas de pano, porque não conseguia comprar as descartáveis para que sobrasse para comprar o leite e o pão do dia a dia. Não importava ficar sem carne nas refeições, desde que garantisse o sustento e o mínimo para sobreviverem. Seus vizinhos eram seus melhores amigos e a família que precisava. Ajudavam da forma que podiam, cuidando da menina enquanto a mãe estava fora, ou compartilhando qualquer tipo de comida, por mínima que fosse.

No período de dois anos trabalhou como diarista, faxineira, passou e lavou roupas para fora. Infelizmente eram trabalhos esporádicos e sem qualquer garantia. Sequer conseguia crédito na praça para que pudesse adquirir algo. Eram tempos difíceis e nessa busca por trabalho chegava a questionar a própria vida e o sentido dela. Numa terça-feira qualquer, já não tinha noção dos dias, semanas ou meses, apenas vivia, uma vizinha venho lhe informar sobre um anúncio num jornal da semana anterior. O anúncio pedia candidatos a serviços gerais e tinha um e-mail para envio do currículo. Correu para o mercadinho da esquina e pediu para usar o computador, somente para enviar o currículo. O dono do armazém conhecia Marirose e sabia de sua realidade, sua luta e mesmo com dificuldades, pagava direitinho todas as compras que anotava no caderninho. Enviou o e-mail, mais uma vez esperançosa de que uma hora daria certo, mesmo sabendo que esses currículos enviados por e-mail, raramente recebia retorno.

Na sexta-feira recebeu uma ligação, em seu celular usado e muito simples. Solicitavam se podia comparecer a uma entrevista na segunda-feira próxima. Ficou animada e disse que podia. Ao escrever o endereço percebeu que era longe e num bairro nobre da grande cidade em que morava. Mesmo insegura confirmou que estaria no endereço, na segunda-feira às 8h e 30 minutos da manhã. Animou-se no final de semana, ficou até alegre com a possibilidade de uma entrevista. Iria se esforçar para que conseguisse a colocação. Buscou informar-se de como poderia chegar a entrevista, teria de pegar um ônibus, o trem e outro ônibus para chegar ao local e anotou tudo numa folha de papel, inclusive os horários das conduções. Combinou com a vizinha de deixar-lhe a filha, enquanto estaria na entrevista, e essa mesmo, lhe emprestou alguns reais para completar o montante para ir e vir da entrevista sem qualquer outro gasto possível.

Na segunda-feira, acordou às 5h da manhã, arrumou-se, preparou a filha e saiu de casa às 5h e 45 minutos. Deixou a filha na vizinha com uma sacolinha de plástico com poucos itens, apenas o essencial para a filha. Tomou o ônibus, chegou ao trem e após subiu no último ônibus para chegar ao destino. Chegou ao local da entrevista às 8h e 15 minutos. Orgulhou-se de ter chegado antes, de ter conseguido entrar nas conduções lotadas, em dia e horário de pico de pessoas indo trabalhar, ou indo dar conta de seus afazeres.

Em frente a um grande portão, reconheceu o número que anotara e ao lado, uma pequena porta com um interfone. Tocou e a campainha soou, ouviu a voz que lhe pedia identificação. Identificou-se e a porta se abriu. Era uma mansão, dessas que só vira na televisão, com um jardim enorme e muito linda. Uma mulher lhe aguardava numa porta lateral e chamou-a. Dirigiu-se à mulher e apresentou-se. Entraram numa pequena sala e pela janela enorme viu o jardim que havia atrás da casa, com muito verde, árvores, e até piscina. Havia a luz natural do sol que brilhava lá fora, uma sensação de pureza, de tranquilidade, de uma luminosidade inexplicável. Estava deslumbrada, nunca havia visto algo assim tão grandioso e bonito. A mulher, que era a governanta e chama-se Odila, abriu aquele janelão de vidro e chegaram a uma varanda com uma mesa de jardim branca e duas cadeiras. Tudo era tão lindo que Marirose estava boquiaberta. Odila pediu que sentasse e folheou o currículo, para recordar o motivo que havia solicitado a entrevista. Em seguida explicou o perfil de trabalhador de que estava em busca, o serviço a ser realizado e qual seria o salário, condições e incentivos. Marirose seria serviços gerais, cuidaria da limpeza da casa, da roupa e da cozinha. Receberia ordens, auxilio e instruções de Odila para realização do serviço, além disso, de quinze em quinze dias, vinham outras duas pessoas para dar conta do serviço pesado, para lavar os vidros enormes da casa e um jardineiro que cuidava da parte externa uma vez por semana. Marirose, ficaria com o serviço do dia a dia, de segunda a sábado, domingo seria sua folga. Trabalharia das 9h às 17h, tendo uma hora para almoço conforme o andamento do trabalho diário. Receberia dois salários mínimos, ajuda para transporte, convênio médico e incentivos conforme sua produção, organização e asseio com os deveres. Os olhos de Marirose brilharam, nunca havia recebido uma oferta de trabalho tão digno, mas ainda estava só na entrevista. Conversou com Odila e logo se identificaram. Marirose era asseada, responsável e organizada. Estava um busca de uma oportunidade para que pudesse expressar sua vontade de trabalhar e ser reconhecida por isso. Em uma hora a entrevista estava encerrada e Odila informou-lhe que faria contato, lhe informando qualquer das resoluções tomadas. Marirose agradeceu e elogiou o respeito em retornar sobre a entrevista, nem todos os empregadores retornavam.

Marirose voltou para casa e chegou quase uma hora da tarde. Estava com saudade da filha pequena e quem sabe, ainda conseguiria lhe dar o almoço. Chegando na vizinha, a menina já havia almoçado e ficou contente de ver a expressão de alegria no rosto de Marirose e sua filha correu para seus braços. Agradeceu a vizinha, e falhou-se brevemente sobre a entrevista de trabalho, de que seria um sonho se conseguisse essa vaga. Foi para sua pequena casa. Uma alegria repentina, uma sensação de que tudo ia dar certo, que o futuro seria generoso e que nada abalaria sua energia tomou conta de seu ser. Sua filha também estava radiante e passaram uma tarde muito alegre e com muito amor e carinho, só as duas. No dia seguinte tinha uma faxina na parte da manhã, e à tarde passaria roupas para um comerciante do bairro. E assim, a semana foi passando, mantendo a esperança, procurando trabalho e mantendo suas ocupações provisórias.

Na sexta-feira recebeu a ligação de Odila dizendo que ela fora selecionada e se podia começar na segunda-feira. Marirose ficou muito feliz e agradeceu imensamente Odila. Na segunda-feira, às 8h 30 minutos já estava dentro da mansão e aguardava ordens de Dona Odila, a governanta. A mansão era enorme, mas havia pouco a se fazer, pois o patrão de ambas, um homem solteiro, era um ator famoso, quase não parava em casa, sempre viajando, trabalhando e pouco opinava no dia a dia da casa, deixava isso por conta da governanta Odila. Em duas semanas de trabalho, Marirose já havia entendido praticamente tudo, já dava conta do serviço e a governanta elogiava sua organização, asseio e comprometimento. Estava satisfeita com a contratação e o relacionamento entre as duas era suave e respeitoso. Numa manhã de sexta-feira o patrão chegou de uma viagem, Marirose só o vira em fotos espalhadas pela casa, mas quando o viu pessoalmente, seu assombro foi indescritível, que homem lindo, alto, moreno e atlético, era um daqueles galãs de novela. Quando a viu, cumprimentou-a e desejou-lhe boas vindas ao trabalho. Era um homem elegante, educado e aparentemente humilde, o que se confirmou nos dias seguintes. O patrão tinha bom humor, tratava a todos com cordialidade, não se importava de pendurar a própria toalha de banho no box, comia muitas vezes na cozinha, junto à Odila e Marirose, tranquilamente servia-se de água ou de qualquer coisa que precisasse, poucas vezes pedia algo. Em três meses de trabalho, Marirose estava feliz, seu contrato fora efetivado e o trabalho transcorria da melhor maneira possível. Nesse tempo, a relação de Marirose e Odila estreitou-se, tornaram-se amigas e desenvolveram uma amizade verdadeira. Odila morava sozinha numa pequena casa que ficava nos fundos do terreno da mansão, era uma casa pequena, mas tinha sala, cozinha, dois quartos e um banheiro. Simples mas organizada e asseada como ela mesma. Num determinado dia, perguntou à Marirose se ela gostaria de morar com ela, e poderia trazer sua filha também. Assim Odila não estaria sempre sozinha, facilitaria o transporte e o tempo de Marirose para ir e vir do trabalho. Marirose mal pode acreditar na proposta e aceitou de pronto. A filha não ficaria mais na vizinha, poderia coloca-la numa escola infantil próxima à mansão, e conseguiria pagar com a economia que faria do transporte. Tal era sua felicidade que tão logo se instalou na casa nos fundos do terreno, agradeceu imensamente mais essa oportunidade. A vida lhe sorria enfim, e seus esforços estavam sendo recompensados.

Trabalhou na mansão, juntamente com Odila por dez anos. Foi um tempo muito feliz, Odila tornara-se avó emprestada da menina, que agora era uma mocinha. A relação entre elas era amável e uma cumplicidade que poucas famílias conseguem desenvolver. Marirose sentia-se grata por tudo, pela vida, pelo trabalho, pelo patrão bondoso e afável. Em suas folgas de domingo, conseguia passear com sua filha e nas noites, acompanhava seus estudos, auxiliava como podia e cozinhava para ambas. Odila tinha um horário mais complicado de trabalho, quando o patrão se encontrava na mansão, Odila estava a sua total disposição.

Faltavam dois meses para Marirose completar onze anos de trabalho, Odila chegou à casa dos fundos chorando. O que havia acontecido? Odila declarou que o patrão estava falido, que teria de vender a mansão para pagar dívidas e que ambas estavam demitidas. Odila disse-lhe que tinha o patrão como a um filho e sempre o orientara a controlar seus ganhos, mas o patrão era muito gastador, muitas festas, viagens, objetos caros, restaurantes finos, champagnes francesas que tomava como água e uma vida glamorosa o haviam levado à ruína. Odila queria que ele tivesse casado, que tivesse tido filhos, que aprendesse a investir seu dinheiro e que fizesse reservas para o futuro. Acontece que o patrão já não era mais o galã, seus contratos publicitários, de cinema e televisão ha tempos estava escasseando e ele mantinha os mesmos custos altos de vida.

Marirose aprendera com Odila a economizar, a investir seu dinheiro e tinha até uma poupança, que junto com o dinheiro da indenização, conseguiu comprar um apartamento, desses de condomínio subsidiados pelo governo. Pequeno, mas era seu, e pagara à vista. Que orgulho! Conseguiu mobiliar com o essencial, mas sem dívidas. Odila ficou orgulhosa de sua filha Marirose e de sua neta, fora visita-las assim que estavam morando no apartamento, ficou encantada com o que viu, simples, mas organizado, asseado e tranquilo, como era Marirose. Odila despediu-se, dizendo que moraria em outro estado, pois havia conseguido um trabalho de governanta. Não sabia quando as veria novamente, mas manteriam contato e quando possível, visitaria sua família adotiva. Ambas choraram com um misto de tristeza e alegria, de permanência e ausência, de conquistas e perdas, de danos e merecimentos. Marirose mostrara-se uma batalhadora e com a experiência na mansão, logo conseguiu um trabalho perto de casa, num escritório de advocacia. Ganhava menos, mas evitava contrair dívidas, guardava o máximo de dinheiro que podia e comprava sempre à vista. Como tinha casa própria e o básico garantido, tinha que pagar as contas mensais e vivia humildemente, sem ostentação. Sua filha aprendera com a mãe e aos quinze anos já trabalhava como aprendiz no escritório que a mãe fazia a limpeza. Os patrões advogados eram pessoas simples e generosas. Incentivaram sua filha a continuar os estudos e por sua dedicação, auxiliaram com os custos da faculdade de Direito. Sua filha seria Advogada. Marirose era feliz e cada vez mais grata pela vida e pelas oportunidades que soubera aproveitar. Os tempos difíceis ficaram para trás e o futuro lhe sorria.

Passaram-se mais quinze anos de sua partida da mansão e, agora vivia numa casa, que adquiria com suas economias e com a ajuda de sua filha. Viviam ela e sua filha advogada, ambas trabalhavam no mesmo escritório, com os mesmos patrões bondosos. Num domingo qualquer Marirose resolveu fazer um passeio no parque que a cidade havia reaberto após anos de abandono, agora com melhorias para os usuários. Queria conhecer e apreciar momentos à natureza. Convidou uma vizinha e foram de táxi, pois o parque ficava a uns dez quilômetros de sua casa. Quando chegaram ficaram encantadas com a visão. Um parque arborizado, cheio de crianças e famílias que se divertiam e riam. Havia um pequeno lago, com uma pontezinha pequena. Vários bancos e grandes áreas com grama, onde muitos faziam piqueniques. Divertiam-se vendo as pessoas felizes e um cheiro de pipocas recém feitas as conduziram até o pipoqueiro. À frente da carrocinha de pipocas, Marirose ficou atônita, olhou o pipoqueiro e sorriu, mais velho, cabelos brancos e rechonchudo. Ele a olhou e sorriu também, reconheceram-se na hora. O pipoqueiro era seu antigo patrão, o galã, dono da mansão em que fora tão feliz. O pipoqueiro ficou muito feliz em rever sua antiga funcionária e conversaram alegremente. O pipoqueiro confessou que sua vida não tinha sido fácil após sua falência, perdera tudo e os amigos que tanto lhe rodeavam quando era famoso e quando tinha dinheiro sumiram, simplesmente faziam de conta que não o conheciam. Desde então, procurara trabalho, mas como nunca havia se dedicado a nenhum estudo, nada conseguia, os tempos foram cruéis com ele. Conseguira licença da Prefeitura para vender pipocas no novo parque, pois o dono da pensão em que vivia lhe era mais leal do que muitos outros que havia conhecido. Marirose condoeu-se com a sua realidade atual, sentia por ele gratidão e respeito, pois sempre a tratara com educação. Pegou o número de seu telefone, e começou a frequentar o parque mais vezes, e comer mais pipocas também.

Algum tempo depois e após uma conversa com sua filha, resolveu convidá-lo a morar com elas. Sua casa não era a mansão que ele tinha outrora, mas nos fundos havia uma edícula com banheiro, que poderia se transformar em residência para o antigo patrão. Ele ficou em choque, não acreditava naquilo, agradeceu imensamente a bondade e o desprendimento de sua agora amiga de longa data. Tão logo a edícula ficou pronta, pouca coisa foi feita, uma parede separava o quarto da sala/cozinha e um banheiro simples que ficava no canto. Nada muito grande, mas nem tão pequeno, para quem morava num quarto de pensão. Ajudaram o pipoqueiro a se acomodar, e até presentearam-no com alguns móveis, o básico para que pudesse ter dignidade. Continuou com as vendas de pipoca no parque e estava muito feliz com as voltas que a vida dá. Tornaram-se grandes amigos, mantendo uma relação cordial, familiar e, onde um auxiliava o outro. Pouco tempo depois, organizaram uma viagem de ônibus para visitarem Odila e assim, matarem a saudade e contar-lhe tudo que lhes havia acontecido.

Passaram-se alguns anos, e a edícula se transformou num pequeno sobrado, enquanto que a casa da frente estava mais cheia, com a filha casada e dois netos, Marirose agora aposentada, mais uma vez estava feliz e grata pela vida, suas batalhas estavam vencidas e ainda encontrava tempo para auxiliar aos outros. Mesmo com o triste falecimento de Odila, numa conversa com seu amigo e ex patrão, concluíram que a vida é uma das maravilhas do mundo, que devemos valorizar o tempo e as relações leais, e acima de tudo, surpresos com tudo que lhes havia acontecido, de como chegaram até aquele momento e que essa jornada dá mesmo muitas voltas, e nessas voltas voltamos a encontrar nós mesmos, nas pessoas que permanecem conosco.

 
Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

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