Porco Dio, que mulher!

Atualizado: 6 de ago. de 2020

Sua avó nunca deixava que seus cabelos crescessem mais que a altura dos ombros. Na época, cabelo avermelhado era sinônimo de feiura. “Somente as feias eram sardentas e ruivas. E somente os adultos achavam aquilo bonito. Crianças não achavam ruivos bonitos”, pensava ela. Seus cabelos curtinhos, que sua avó cortava, instigavam seu instinto moleque. Sempre estava entre os meninos e adorava brincar com seus irmãos e amigos deles. Entre brincar com suas bonecas e brincar de lutinha com seus irmãos, era certo que a segunda opção seria a escolhida. Ela era tão levada que até hoje carrega dezenas de cicatrizes causadas por imprudências e acidentes na infância. Cicatrizes incontáveis pelo corpo branquelo e sardento.

Ela era baixinha e, como todas elas, carregava a fama de ser estouradinha. Adorava assistir filmes de ação e irritava-se por qualquer coisa e; por qualquer coisa puxava uma briga.

Sempre que ela podia, ia ao boteco com seu pai. Às vezes, ele mesmo ou sua mãe não deixavam. Mas ela insistia tanto, que quase sempre conseguia ir. Ele tomava samba: coca cola com cachaça. Aquele cheiro embriagava instantaneamente. O boteco ficava ao lado de uma oficina mecânica. Muitos caminhoneiros frequentavam o local que acabava servindo de entretenimento após o expediente que encerrava no final da tarde. Ao baixar o sol, era certo que o bar estaria cheio de machos jogando sinuca, bebendo cachaça ou cerveja e botando conversa fora. Aquilo lembrava os filmes que via na televisão. Homens com as mãos cheias de graxa e aquele cheiro de óleo diesel impregnado em cada milímetro daquelas paredes.

Ela chegava ao lado do seu pai e todos os frequentadores já sabiam que ela era a filha do motorista do truck vermelho. Os donos do boteco eram amigos dos seus pais. Por isso, a guria era quase uma mascote naquele ambiente.

Aquilo fazia com que ela se sentisse tão voraz e importante quanto aqueles homens engraxados. Sentia-se tão imponente que nenhuma de suas colegas de escola poderia enfrentá-la naquele ambiente. Ficava criando cenas em sua cabecinha oca: “Se chegarem aqui, levam porrada na certa”, ela imaginava.

A pivete assistia, com os olhos brilhando, os jogadores de sinuca acertar as caçapas entre um beberico e outro. Mas tinha outro motivo que fazia seus olhos brilharem: a dona do boteco. A maneira como ela atendia aqueles homens era impositivo, direto, curto e grosso. Impunha um respeito fora do comum. Obviamente o machismo existia e, naquele lugar ele predominava. Mas ela conseguia conduzir aquilo de uma maneira como nunca tivera visto antes. Naquela época a expressão “empoderada” não existia ainda. Hoje, certamente, cabe àquela gringa.

Certa vez, a pivete de cabelos curtinhos igual a um moleque foi até o boteco, ao encontro do seu pai. O sol já se distanciava, a noite chegando e o boteco começou a lotar. Muitos homens bebendo e a sinuca pegando. Aquela mesa coberta com feltro vermelho fazia as bolas deslizarem e, a cada tacada, um estouro que fazia aqueles caminhoneiros vibrarem. Barulho de copos, bolas nas caçapas, gritaria...

A guria encontrou seu pai no meio daqueles homens todos e, quando ele a viu, abriu um sorriso e disse para a dona do boteco: “olha ali quem veio”. Sim, a pivete era parceirona do seu veio e também já era amiga da dona do boteco. A gringa logo trouxe uma guloseima para ela saborear enquanto seu pai tomava aquele tradicional samba. “Come isso ai e já vamos embora, senão, tua mãe vai brigar com a gente” – disse ele.

Minutos depois do pai da pivete dar aquelas coordenadas, um barulho ensurdecedor tomou o local. Seu pai a pegou no colo e a passou para a dona do bar para que ela a colocasse atrás do balcão para se proteger. “Diz pra ela ficar ai”, ele orientou a gringa. Nunca, em sua vida ela estivera naquele lugar. Parecia cenário de filme. Aqueles balcões rústicos, entulhados de coisas à venda. Estava em êxtase.

Numa fração de segundos, em meio aqueles socos, cadeiras voando e gritaria, ela olha para o lado e nota a dona do boteco com uma espingarda engatilhada. A gringa aponta aquela coisa para o alto e grita: - “porco Dio, vocês vão parar com esta merda é agora” e meteu o dedo no gatilho estourando o forro do boteco. Todos os homens que estavam envolvidos na briga foram retirados do bar. Seu pai foi ao seu encontro e ficaram mais alguns minutos la tentando identificar o quê e quem provocou aquele furdunço todo.

Enquanto os adultos conversavam, a pivete olhava tudo ao seu redor e, quando se deu conta, aqueles olhos de pinica estacionaram diante da gringa. Com o semblante irradiado por aquele filme de faroeste pensou: “porco Dio, que mulher”.


 

Cláudia Kunst

Cláudia Kunst, produtora cultural e jornalista. Produz shows, bandas e projetos há 20 anos. É quase uma workaholic e é apaixonada por música. Adora tatuagens, carros antigos e botas empoeiradas e um pouco de solitude.

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