Antigo novo olhar literário de Martha Batalha

Atualizado: 5 de jun. de 2020

Neste exato momento ocorre um murmurinho na arte literária brasileira e, porque não dizer, na arte cinematográfica também. Enquanto clássicos da literatura e até mesmo contemporâneos despontam no cenário, sendo reescritos ou adaptados ao cinema, uma autora brasileira tem chamado a atenção de críticos e cineastas. Trata-se de Martha Batalha, pernambucana de nascimento e erradicada no Rio de Janeiro, que traz nova luz às produções artísticas, mesmo com conteúdo histórico e questões existenciais. Um talento de escrita que desponta com leveza, com exímio domínio da narrativa, que prendem o leitor nas construções frasais e no desenrolar da trama, em que se anseia chegar ao final da leitura para descobrir o desenlace das ações. Uma jovem adulta escritora, com dois livros publicados: um em 2016 e o outro em 2018. Sendo que o primeiro foi vendido para editoras internacionais antes mesmo de ser publicado no Brasil. Assim que chegou ao Brasil alcançou grande repercussão que já ganhou versão no cinema.


A vida invisível de Eurídice Gusmão é um livro de sucesso e espera-se o mesmo na adaptação cinematográfica. Tanto a escritora, quanto o diretor e sua equipe têm bastante talento para tornar essa obra um marco na literatura e no cinema brasileiro. Indispensável recomendar a leitura do livro, antes de assistir ao filme, para ter todos os sentidos aguçados e a memória revelada. Essa narrativa está ambientada na metade do século XX, com temática atual e que explora discussões sobre as condições de vida, principalmente, das mulheres dessa época. Traz à tona a história de vida de duas irmãs, Eurídice e Guida Gusmão, distintas uma da outra em temperamentos, mas ligadas pelo elo do amor fraternal. Uma delas é introvertida e a outra extrovertida, que coexistem num rígido regime patriarcal que procuram pela verdade sobre suas existências, a busca pela felicidade e pela liberdade. Uma vive num casamento infeliz, e a outra que foge de casa com o namorado, além de uma gama de personagens cheios de personalidade e com temperamentos curiosos. O desenrolar das ações envolvem o leitor desde a primeira página, com ritmo e excelente estrutura textual, abordando temas como a violência, a marginalização e a injustiça, com humor e ironia. Tarefa árdua e conquistada com louvor pela que mantem o prazer pela leitura. A cidade onde as ações acontecem é no Rio de Janeiro da Década de 1940, onde a natureza ainda é exuberante e ao mesmo tempo tropical, que a tornou célebre e ganhou o título de: “Cidade Maravilhosa”. Assim como, a natureza feminina, sensual, sexual e calorosa das personagens torna a história instigante e ao mesmo tempo questiona e desconcerta o leitor, revelando a condição das mulheres em uma sociedade machista e cheia de pudores.

O segundo livro dessa surpreendente escritora é Nunca houve um castelo e trata-se de uma saga familiar que dura 110 anos. Narra a trajetória dos descendentes de Johan Edward Jansson, cônsul da Suécia, que em 1904 constroi um castelo em Ipanema, no Rio de Janeiro, para morar com a esposa brasileira e criar uma família feliz. Ao longo da narrativa e da passagem do tempo podemos observar as causas e consequências das escolhas e dos consequentes arrependimentos. As mudanças irremediáveis da sociedade brasileira, desde a ascensão social à divisão de classes, a eclosão dos ideais femininos e feministas, a revolução sexual e o anseio pela liberdade, o golpe militar e a deterioração do país.

A vontade é de contar toda a história, ou como dizem dar o spoiler, mas acabaria com a surpresa de se permitir o deleite, a empolgação na leitura e a degustação dessas narrativas envolventes, cheias de vivacidade e inteligência. Escreveria linhas e linhas sobre a verossimilhança ao tempo, às questões humanas pertinentes e que exigem reflexão, ou sobre o simples prazer de debruçar-se sobre a essa leitura e envolver-se à narrativa, permitindo-se ser parte dela.

Qualquer uma das duas obras valem a leitura e a releitura, e ainda ter à mão sempre que precisar recorrer e recordar as passagens sobre o passado e o futuro, delineados com corrosão e humor ao mesmo tempo. Boa leitura e aproveite!

 
Juliane Sperotto é especialista em Literatura Brasileira  pela UFRGS; graduada em Literatura e Língua Portuguesa  pela UNISINOS; escritora e uma das fundadoras e idealizadoras da revista Escape. Atualmente responde pela revisão ortográfica da revista e é uma das editoras associadas.

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