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Vítimas da insônia

Atualizado: 9 de jun. de 2020

O que você faz quando está com “insônia” ou com aquela indisposição momentânea para dormir? Bem, acontece que há poucos dias fui acometido por essa situação incômoda. A bem da verdade, cada um de nós lida com essa situação de formas variadas. Eu, por exemplo, procuro não fazer nada que estimule demasiadamente o meu cérebro, pois compreendo que o sono noturno é necessário para repor as energias e qualificar o trabalho do dia seguinte. Mas, existem aqueles que fazem exatamente o contrário. Encurralados, pela falta de sono, dão seguimento as suas atividades mentais e estimulam o seu cérebro até o esgotamento físico do corpo e, inevitavelmente, acabam adormecendo.


Em muitos casos, quando estes estímulos cerebrais noturnos levam o insone a produzir artística ou intelectualmente somos (em algumas situações) presenteados com peças e obras que nos confrontam, provocam e movimentam.

Em algumas ocasiões a insônia pode ser o start para a criação artística

Eu, particularmente, conheço poucos casos em que me senti grato pelo infortúnio alheio que resultou em produções interessantes. Mas, de toda forma, fico muito contente por algumas das noites de insônia que Cesar Meirelles teve. Cesar, mais conhecido como China, apelido que traz desde sua infância, é uma pessoa reservada. Natural de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, é músico e colecionador de vinil, sendo que a sua paixão fez com que constituísse um acervo com mais de cinco mil peças em sua coleção, dentre as quais destacam-se muitas raridades. Foi integrante (Vocals, Bass) da banda de death metal Mental Horror, de Porto Alegre, até o ano de 2010. Entre outras coisas, o cara é um quadrinista de mão cheia. Como ilustrador, escrevendo os seus próprios roteiros, produziu inúmeras histórias em quadrinhos e tiras para diversos fanzines e publicações independentes, sempre no universo underground. Dentre seus trabalhos destaco as tiras “Demência Quadrinhos” (1999) que expressa o seu característico e polêmico humor negro. Tiras estas que trarei em outro momento em uma postagem futura.


Tendo apresentado brevemente o artista, volto ao ponto central da matéria. A falta de sono desse artista fez com que ele pegasse papel e caneta para retratar os seus autores e artistas favoritos. Não há pretensão alguma no seu trabalho. Ele apenas resolveu compartilhar pequenos sketches que foram batizados como “vítimas da insônia” e foram publicados na sua rede social a partir de fotografias das ilustrações. Importa dizer que as fotografias foram feitas no celular com iluminação precária e de baixa resolução. O material emergiu sem um propósito final especifico. É apenas a arte conversando com o seu criador, o que não torna o material menos relevante, muito pelo contrário.


A forma como as imagens foram postadas, com baixa resolução e pouca iluminação, acabou por tornar o trabalho característico, ou seja, ela se encaixou perfeitamente com o ar nebuloso e sombrio dos artistas retratados. Além disso, temos um retrato implícito da natureza da obra de Cesar Meirelles através de todo o referencial artístico retratado por ele, ao ilustrar as suas “vítimas da insônia”. Assim podemos conhecer um pouco das referências de Cesar e o quanto elas povoam a sua obra para além do recorte apresentado nessa matéria.


Então, quem são essas tais vítimas da insônia de Cesar Meirelles?


Charles Bukowski
Allen Ginsberg
William Burroughs

Comecemos com os escritores. Dentre eles, o incomparável, Henry Charles Bukowski Jr, que entre um gole e outro transformava sua vida tumultuosa em arte. Talvez, Bukowski seja uma das maiores inspirações de Cesar. As ideias e estética do autor alemão influenciaram fortemente o seu trabalho que, nos quadrinhos, trata dos excluídos, daqueles que enxergam a sociedade com olhos remelentos e lágrimas de ódio e desprezo. É claro que nesta seleta série de vítimas não poderiam faltar algumas das principais figuras da Geração Beat como Irwin Allen Ginsberg e William Seward Burroughs. Cesar, em uma das ilustrações, atira este último autor no universo cinematográfico construído por David Cronemberg, no filme Naked Lunch (Mistérios e Paixões na versão brasileira), adaptado da própria obra de Burroughs, no livro Naked Lunch (Almoço Nu na edição nacional pela Companhia das Letras). Continuando com o time de escritores seria uma verdadeira heresia se não aparecesse nesse grupo um dos mestres que revolucionou o gênero do terror, Howard Phillips Lovecraft, mais conhecido por H. P. Lovecraft. A ilustração, que retrata o escritor, faz uma breve alusão ao conto “O Chamado de Cthulhu” do autor norte-americano.


H. P. Lovecraft
Boris Karloff [ Frankenstein ]

Passando pelas páginas lúgubres dos antigos alfarrábios para as telas do cinema, Cesar nos brinda com algumas referências ainda mais sugestivas. Figuras como Leonidas Frank Chaney, mais conhecido como Lon Chaney, agregando, através do lápis de Cesar, a milésima primeira face ao “homem das 1000 faces”; o pobre monstro de Frankenstein interpretado pelo inesquecível BorisKarloff, nome artístico de William Henry Pratt; a bela Barbara Steele, como a bruxa vingativa Asa Vajda no clássico filme cult Black Sunday (1960), ou A Maldição do Demônio, filme baseado na novela de terror Viy escrita por Nikolai Gogol; a queridinha do cineasta Ed Wood, a atriz finlandesa MailaNurmi,saída diretamente da série de televisão The Vampira Show. E a lista não para aí. Até o cineasta Pier Paolo Pasolini ganha sua versão a partir do grafite de Cesar Meirelles. Por último, mas não menos importante, somos apresentados a ninguém menos do que Béla Ferenc Dezsõ Blaskó, mais conhecido como Bela Lugosi. Para entrar no clima desta etapa cinematográfica das vítimas da insônia que tal curtir Bela Lugosi's Dead que é uma canção escrita pela banda pós-punk, Bauhaus. Esta música (1979) é considerada por muitos o primeiro registro de rock gótico lançado.


Aqui estão as vítimas da insônia de Cesar ‘China’ Meirelles no seu formato original - de Charles Bukowski a Bela Lugosi

Esta é uma pequena amostra de algumas das referências que influenciaram o trabalho e a arte de Cesar Meirelles, uma expressão do meio underground.


Segundo Charles Feitosa, no seu livro ‘Explicando a Filosofia com Arte’ (2004), existe um aspecto na experiência estética da arte que jamais devemos deixar de lado. “Sem a interpretação daquele que vê ou ouve, sem a construção de sentido por aquele que percebe, não há beleza, nem obra de arte”. Sendo assim, fique à vontade para comentar nossa postagem que se caracteriza como um espaço para trocar ideias e construir novas possibilidades de conexões. E até lá: “That’s all, folks” que era a frase que encerrava os desenhos da turma do Pernalonga, nos anos de 1960. Então, por enquanto é só, mas não é tudo.

 

REVISTA ESCAPE_
Matéria escrita por: Daniel Cunha | Jornalista Responsável: Cláudia Kunst | Revisão Ortográfica: Juliane Sperotto | Editoração, Layout e Web Design: Daniel Cunha 

Para maiores informações mande o seu e-mail para revistadigitalescape@gmail.com

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